Dia Nacional do Deficiente Visual: a história de Josué Quirino, o primeiro professor cego do ensino público regular de Alagoas

Com uma história de superação exemplar, Josué Quirino foi aprovado em concurso público da Educação e agora compõe o quadro de professores efetivos na unidade de ensino na Escola Estadual Profª Julieta Ramos Pereira Thiago Ataíde

A educação de Alagoas é marcada pela acessibilidade a estudantes e profissionais com deficiência visual. Além dos três centros especializados para atender especificamente essa parcela da população e do empenho dos professores da educação especial, a Secretaria de Estado da Educação (Seduc) celebra o Dia Nacional da Pessoa com Deficiência Visual, comemorado nesta terça-feira (13), contando a história do primeiro professor deficiente visual da rede de ensino estadual. 

Josué Quirino foi aprovado no concurso público da Educação e agora compõe o quadro de professores efetivos na unidade de ensino na Escola Estadual Profª Julieta Ramos Pereira, sendo o primeiro professor a atuar em uma escola de ensino regular em Alagoas. Até então, os professores com deficiência visual aprovados em concurso da Seduc eram diretamente encaminhados para o Centro Cyro Accioly, instituição que é referência no atendimento a pessoas com limitações na visão.

O professor Josué tem a chance de compartilhar a sua experiência com pessoas que enxergam, fazendo com que as mesmas entendam a realidade de um deficiente visual e colaborem para transformar o ambiente escolar em um espaço mais inclusivo. Com uma trajetória de superação de barreiras, ele diz que não quer ser considerado herói, mas inspira a todos que têm a oportunidade de conhecê-lo e aprender um pouco com a sua força de vontade. 

/ Agência Alagoas.

“Estou aqui aberto a aprender com vocês, e não só contribuir com a formação dos alunos, mas para o desenvolvimento da inclusão aqui na rede estadual. Uma vez que essa é uma ótima oportunidade, por não ser uma realidade ainda em nossa sociedade, uma pessoa com deficiência estar em uma sala de aula como professor. É uma forma até para o aluno vivenciar essa realidade, viver com o diferente e trabalhar essa aceitação. À medida que também posso passar a mensagem para eles de que todos podem superar suas barreiras”, afirmou Josué.

Superação

Desde sua infância, Josué sofre de deficiência visual progressiva, o condicionando a passar boa parte da vida com baixa visão, dificuldade essa que não o impediu de se desenvolver enquanto cidadão e buscar seu lugar na sociedade. Aos 41 anos, Josué já carrega consigo a sabedoria adquirida após três formações: Teologia, Direito e História. E mais: o professor já era servidor público do estado de Alagoas e desempenhou a função de vigilante em duas unidades de ensino, na própria Escola Julieta Ramos e, posteriormente, no Centro de Educação Especial Cyro Accioly, em Maceió.

Com o agravamento da sua patologia, Josué passou a fazer parte do Centro Cyro Accioly, onde também começou a estudar Braile (sistema de escrita tátil), computação e tecnologias da inclusão. Hoje, clinicamente diagnosticado com cegueira total, Josué leciona a disciplina de História para os estudantes do Ensino Médio de forma independente, com o auxílio dessas tecnologias integradas ao seu computador, a exemplo do programa Dosvox, que o ajudará a ler e escrever para preparar suas aulas, além de contar com ferramentas como o retroprojetor, para a exposição de conteúdo. Porém, mais do que o ensino curricular básico, o professor está levando consigo a missão de transformar a perspectiva de toda a comunidade escolar sobre a capacidade das pessoas com deficiência.

Referência

A comunidade da Escola Julieta Ramos, por sua vez, acolheu de forma calorosa o ex-vigilante, que agora retorna como professor. Edvaldo Leite, gestor da unidade de ensino, afirma que receber um professor com deficiência visual será um desafio prazeroso para a escola, que já tem um histórico de trabalho de inclusão entre seus alunos e profissionais.

Imagem: / Agência Alagoas.

“Para nós aqui da escola é um orgulho. Nós estamos sendo premiados em receber um professor com deficiência visual que passou por mérito próprio num concurso público e está vindo agregar com seu conhecimento. Com certeza o Josué servirá de espelho, para que nossos alunos possam perceber, na prática, como conduzir suas mais diversas especialidades. E para aqueles que deixam de frequentar a escola, por conta das suas deficiências, vejam nele uma inspiração de vida,” pontuou o gestor.

A unidade passou por adaptações para a integração do professor, onde foram aplicados pisos táteis nos corredores e inseridas sinalizações em Braille nas salas de aula para facilitar a sua locomoção. Também é de responsabilidade da unidade, solicitar ao Ministério da Educação (MEC) o envio do material pedagógico no sistema Braille, que auxilia no planejamento de aulas e condução do currículo da disciplina. 

Em sua apresentação na escola, o professor Josué destacou a importância da inclusão social para que mais pessoas com deficiência possam desempenhar papéis de maior expressão e participar ativamente da sociedade. “Essa abertura que o estado está dando para que as pessoas com deficiência participem de concursos dá a possibilidade de a sociedade compreender que nós deficientes existimos, que somos capazes, e estamos na sociedade fazendo parte dela. O diferente pode repelir ou aproximar, tudo depende de como essa relação é criada”, diz Josué.

“Então, espero contar com a contribuição dos colegas para executar o meu trabalho. E tirando pelo acolhimento que recebi aqui [na escola], as minhas expectativas são as melhores”, completa o professor.

Inclusão

A posse de Josué como professor efetivo representou mais um capítulo de uma longa jornada que a Seduc percorre na promoção da inclusão de pessoas com deficiência na rede estadual de ensino. Seja pela referência do trabalho exercido pelos seus três centros especializados (Cyro Aciolly, Wandette de Castro e CAS) ou pelo empenho dos profissionais da educação especial que atuam nas escolas de ensino regular, a meta da secretaria sempre foi ampliar a participação e integração da pessoa com deficiência no meio escolar.

Outro passo importante foi dado com o concurso realizado em 2021. Além da cota para candidatos com deficiência – regulamentada por meio da Lei 8.213, Decreto 9.508/2018 – o certame, pela primeira vez, disponibilizou vagas para professores da educação especial. Ao todo, foram 342 vagas para profissionais que estarão lotados em todas as escolas da rede estadual para atuarem junto aos estudantes com deficiência.

“Esse concurso promoveu um feito histórico. A partir do momento em que temos um professor com deficiência visual sendo empossado e ministrando aulas, isso vai motivar mais pessoas com deficiência a participarem de concursos públicos como também vai atrair mais estudantes nesta mesma situação para a rede  estadual de ensino. Além disso, nos permite repensar nossa prática pedagógica enquanto escola”, avalia a supervisora de Educação Especial da Seduc, Jedalva Santos.

Imagem: / Agência Alagoas.

Já para a secretária de Estado da Educação, professora Roseane Vasconcelos, outro diferencial na inclusão foi a oferta de vagas para a educação especial no certame. “Avançamos muito na inclusão das pessoas com deficiência em toda a rede estadual de Alagoas. Além da contratação de profissionais excelentes como o professor Josué, também reservamos vagas para a educação especial. Esses professores e professoras farão um importante trabalho de inclusão e acessibilidade pedagógica e arquitetônica nos espaços escolares”, destacou Roseane. 

Joyce Andrea e Ana Paula Lins / Agência Alagoas. Imagem:  Thiago Ataíde / Agência Alagoas.