JBS e Marfrig emitem mais metano do que países inteiros

Gigantes brasileiras lideram emissões de 15 grandes produtoras globais de carne e laticínios. No topo do ranking, JBS emite mais que França, Alemanha, Canadá e Nova Zelândia juntos.

As emissões de metano de 15 grandes produtoras globais de carne e laticínios somam cerca de 12,8 milhões de toneladas, o equivalente a mais de 80% de toda a pegada de metano da União Europeia, afirma um relatório publicado neste mês pelo Institute for Agriculture and Trade Policy (IATP) e a Changing Markets Foundation. Essas empresas também emitem mais metano do que países inteiros, como Rússia, Alemanha, Canadá ou Austrália, aponta.

Dentre as 15 empresas analisadas no relatório, intitulado Emissões impossível – Edição metano: Como a indústria de carne e laticínios está aquecendo o planeta , as brasileiras JBS e Marfrig aparecem no topo da lista – tanto de emissões de metano (CH4), quanto de CO2 equivalente, que, além do metano, inclui os gases de efeito estufa CO2 e óxido nitroso.

“Apenas uma empresa de carnes, a JBS, é responsável por quase 40% das emissões pecuárias estimadas por essas corporações. Suas 287,9 milhões de toneladas de emissões de CO2 equivalente superam as emissões da Espanha”, diz trecho do documento.

As emissões de metano da JBS, a maior empresa de processamento de carne do mundo, superam em muito as de todas as outras empresas, aponta o relatório. “Suas emissões de metano [da JBS] excedem as emissões combinadas de metano na pecuária da França, Alemanha, Canadá e Nova Zelândia, e se comparam a 55% do metano na pecuária dos EUA.”

Quanto à Marfrig, a segunda maior produtora de carne bovina do mundo, o documento aponta que as emissões de metano da empresa estão no mesmo nível das provenientes da pecuária na Austrália.

Emissões de metano (kg CH4) de cada empresa, segundo o relatório:

  1. JBS (sede Brasil) –                                  4.793.839.720
  2. Marfrig (sede Brasil) –                              1.881.892.248
  3. Tyson (sede EUA) –                                 1.572.725.034
  4. Dairy Farmers of America (sede EUA) –  990.078.641
  5. Groupe Lactalis (sede França) –              516.891.224
  6. Fonterra CO (sede Nova Zelândia) –       494.643.030
  7. Yili Group (sede China) –                         417.022.965
  8. Saputo (sede Canadá) –                          392.985.061
  9. Arla Foods (sede Dinamarca) –               326.332.247
  10. Nestlé (sede Suíça) –                              323.950.260
  11. FrieslandCampina (sede Holanda) –       281.074.490
  12. DW Group (sede China) –                       261.372.039
  13. Danone (sede França) –                          232.473.624
  14. DMK Group (sede Alemanha) –              157.211.156
  15. Danish Crown (sede Dinamarca) –         147.359.890

Emissões maiores que as da UE

As emissões totais de metano dessas 15 empresas são 52% maiores do que as emissões de metano relacionadas à pecuária em toda a UE e 47% maiores do que as dos EUA, maior produtor de gado no mundo, afirma o relatório.

Se essas empresas fossem uma nação, esta seria a décima maior emissora de gases de efeito estufa do planeta, aponta.

O documento faz recomendações aos governos e pede que os países adotem uma legislação “urgente e ambiciosa para abordar os impactos climáticos significativos das corporações globais de carne e laticínios”, e que “apoiem uma transição justa para a transformação da pecuária industrial em agroecologia”.

O relatório também recomenda às empresas analisadas que estabeleçam “metas separadas de redução de metano e planos de ação para alcançá-las, incluindo relatórios separados de emissões de metano”.

O que dizem JBS e Marfrig

Em nota, tanto a Marfrig quanto a JBS afirmaram que têm metas de redução das emissões de gases de efeito estufa com base na ciência.

A JBS afirmou que está comprometida em atingir emissões líquidas zero de gases de efeito estufa até 2040. “Não vimos o relatório ou a metodologia que essas organizações de defesa de campanha podem ter usado para calcular as emissões. No entanto, quaisquer cálculos feitos sem o benefício de dados completos e precisos são meramente especulativos”, diz a nota.

A Marfrig afirmou que pretende diminuir as emissões de gases do efeito estufa da parte industrial da produção (que envolve transformar a matéria prima em produto e a energia utilizada na planta de suas indústrias) em 68% (ano-base 2019) até o ano de 2035, e que utilizará somente energia renovável até 2030.

O problema do metano

O metano é apontado como peça-chave para conter as mudanças climáticas, uma vez que é cerca de 80% mais potente ao aquecimento da Terra do que o CO2. O Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) estima que o gás seja responsável por 30% do aquecimento global desde os tempos pré-industriais.

Gás de vida curta, porém de efeitos persistentes, o metano é produzido no aparelho digestivo do gado, em processos naturais e em uma série de atividades humanas, como os resíduos de aterros e a produção de óleo e gás.

Na Conferência do Clima de Glasgow, no ano passado, foi lançado o Acordo do Metano, no qual cerca de 100 países se comprometeram a reduzir em 30% as emissões de metano até 2030 em relação aos níveis de 2020.

Na COP27, o número de signatários subiu para 150 países, mas a China, um dos maiores poluidores climáticos, ficou de fora. O Brasil é um dos signatários.

De onde vêm as emissões

Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas, ressalta que as emissões associadas à indústria pecuária estão ligadas principalmente ao processo digestivo do boi (fermentação entérica), que libera metano, mas não somente.

“As emissões do setor pecuário no mundo estão ligadas à fermentação entérica do boi, ao desmatamento associado à expansão das pastagens e à existência de muitas áreas de pastagem degradadas, com destaque de 54% no caso do Brasil”, diz Azevedo.

Além de a maioria das pastagens no Brasil estarem degradadas – o que aumenta a emissão de gases de efeito estufa por meio do solo – a pecuária no país está diretamente associada ao desmatamento: dados de 2021 do MapBiomas mostram que mais de 98% do desmatamento no país é causado pela agropecuária.

Pecuária de baixo carbono: é possível?

Contudo, antes que a carne seja apontada como vilã do clima, os especialistas afirmaram à DW que é possível promover uma pecuária de baixo impacto climático com as seguintes medidas:

  • Recuperar pastagens degradadas. O solo recuperado remove o carbono da atmosfera e ainda melhora o alimento do gado. Com alimentação em pastos saudáveis, é possível reduzir a emissão de metano da fermentação entérica;
  • Incluir aditivos na alimentação do gado que inibem a produção de metano durante a digestão;
  • Reduzir o tempo de abate do animal para reduzir a sua permanência no pasto;
  • Melhorar a qualidade das pastagens para aumentar o número de cabeça de gado por hectare;
  • Investir em sistemas integrados de pastagens, promovendo a integração lavoura- pecuária-floresta.

Oportunidades para o Brasil

“Se o desmatamento e a degradação de pastagens forem tratados, poderíamos reduzir as emissões em pelo menos 50% no Brasil, além de gerar uma captura de carbono nos solos que compense cerca de 50% das emissões remanescentes”, afirma Azevedo.

Renata Potenza, coordenadora de projetos de Clima e Cadeias Agropecuárias no Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), concorda que o Brasil tem oportunidade de reduzir as emissões da pecuária e ainda sequestrar carbono por meio de solos recuperados.

“Temos tecnologia disponível, mas falta assistência técnica para o produtor. Precisamos focar na transferência de tecnologia para o campo, para quem produz a carne”, afirma.

“Também tem uma questão cultural envolvida no desmatamento associado à pecuária. Pecuaristas preferem ir para áreas novas do que recuperar solos degradados. Nem mesmo o produtor ganha quando isso acontece, uma vez que recuperar um pasto degradado melhora a alimentação do rebanho e aumenta a produtividade da área, que pode receber mais cabeça de gado por hectare”, diz a coordenadora do Imaflora.

Potenza explica que o Brasil tem uma média de uma cabeça de gado por hectare, mas, com pastagens com solos saudáveis, seria possível ter de 2 a 3 cabeças por hectare.

Eduardo Assad, engenheiro agrícola pesquisador da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), também afirma que é possível diminuir os impactos ambientais da pecuária aumentando o rebanho por pasto

“Faz tempo que temos alertado que o Brasil não precisa de mais áreas de pastagens para aumentar a produtividade. O país pode aumentar a produtividade nas pastagens já existentes. Com solos recuperados, é possível dobrar o tamanho do nosso rebanho sem desmatar”, afirma.

Segundo dados do MapBiomas, a área ocupada pela agropecuária no Brasil aumentou em 44,6% entre 1985 e 2020. No ano passado, o país registrou o maior aumento de rebanho da série histórica divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), chegando ao recorde de 224,6 milhões de cabeças de gado.

Diminuir o tempo de vida do boi é outra técnica que pode ser empregada. “Podemos reduzir em um ano o tempo de abate, reduzindo o tempo de vida do boi no pasto de 36 meses para 24 meses”, diz Assad.

Laís Modelli, Deutsche Welle