COP27: como a economia da ‘floresta em pé’ pretende explorar as riquezas da Amazônia

O açaí é um exemplo de como é possível aproveitar os recursos da floresta sem necessariamente destrui-la. Imagem: Getty Images.

“A floresta em pé vale mais do que derrubada”. A frase dita há décadas pelo seringueiro e ambientalista Chico Mendes ganhou uma nova concepção nos últimos anos.

A chamada bioeconomia foi tema central de um debate realizado no Brazil Climate Action Hub, um espaço que reúne entidades ambientalistas do país na Conferência do Clima das Nações Unidas (COP27), realizada em Sharm El-Sheikh, no Egito.

O açaí é um exemplo de como é possível aproveitar os recursos da floresta sem necessariamente destrui-la

O conceito, que surgiu a partir da década de 1970 no Hemisfério Norte para discutir formas de substituir os combustíveis fósseis por fontes de energia renovável, é visto pelos pesquisadores de hoje como uma das principais alternativas para trazer riqueza e desenvolvimento à Amazônia sem a necessidade de derrubar árvores ou poluir rios.

Mas como isso é possível? Há exemplos de como extrair produtos da floresta sem um rastro de destruição? E o que está sendo feito para destravar esse potencial?

Os pilares de uma nova economia amazônica

Durante o evento, Patrícia Pinho, diretora adjunta de ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), explicou que dá para expandir consideravelmente a bioeconomia na região Norte do país.

“Só o Estado do Pará gera cerca de 5 bilhões de reais a partir de projetos baseados na sustentabilidade”, calculou.

O instituto que ela integra, inclusive, publicou um estudo que estabelece os quatro pilares básicos dessa exploração dos recursos naturais de forma responsável e sustentada.

“Falamos aqui de desmatamento zero, diversificação dos meios de produção, o fortalecimento de práticas milenares e, por último, o compartilhamento dos benefícios obtidos com a população original de cada lugar”, listou.

A especialista destacou que pensar nesses quatro quesitos é fundamental para que a bioeconomia impeça o chamado ponto de não retorno, em que a destruição da maior floresta tropical do mundo se tornará tão grande que não será possível recuperá-la.

Mesa de debates no Brazil Climate Action Hub apontou alternativas para a bioeconomia da Amazônia. Imagem: Divulgação.

Produtos que já são sucesso

Angela Mendes, representante do Comitê Chico Mendes e filha do ambientalista assassinado em 1988, citou uma série de exemplos práticos de como a bioeconomia já opera na Amazônia.

“Temos a extração do látex, da castanha e do açaí pelas populações da floresta, que acumulam muito conhecimento da biodiversidade há milhares de anos”, disse.

“Falamos de pessoas que têm o cuidado com o território. Isso, inclusive, foi a causa do assassinato de meu pai”, lembrou.

Mendes destacou que o país conta hoje com cerca de 80 reservas extrativistas, algumas delas com mais de um milhão de hectares.

Ela também afirmou que esses espaços de florestas, essenciais para proteger a biodiversidade, estão sob ataque e há uma série de projetos de lei que tentam enfraquecer a proteção nesses locais, como o PL 6024 e o PL 3013, em discussão na Câmara dos Deputados.

“O mundo precisa entender que a população e os territórios originais são fundamentais para combater a crise climática”, concluiu.

Outro exemplo do potencial da bioeconomia amazônica veio de Denise Hills, diretora global de sustentabilidade da Natura&Co.

Ela comentou que a empresa utiliza em cosméticos mais de 40 substâncias encontradas na flora da floresta tropical.

“Temos a ucuubeira, uma árvore que até os anos 1990 estava ameaçada de extinção e era vendida a 10 reais para fazer vassouras”, destacou.

“Hoje, sabemos que o óleo da ucuuba [o fruto] tem um princípio ativo capaz de regenerar a pele e melhorar a celulite. O material é vendido a cerca de 100 reais e permitiu recuperar a espécie na natureza”, complementou.

O castanha do fruto do ucuubeiro gera um óleo que tem um grande valor na indústria dos cosméticos. Imagem: Getty Images.

Um passo além

O pesquisador Carlos Nobre, fundador do Amazônia 4.0, destacou que é possível desenvolver ainda mais a região para trazer riqueza e desenvolvimento aos que vivem lá.

“Se a gente olhar a economia mundial no passado, a industrialização foi responsável por permitir que a maior parte da sociedade dos países ricos seja de classe média”, explicou.

“O nosso desafio é pensar em como trazer isso para a Amazônia. Um caminho é agregar valor para os produtos da industrialização com a floresta em pé.”

O cientista, que também é membro do conselho consultivo do XPrize Rainforest – Alana, contou que vários laboratórios criativos estão em fase de implementação ou estruturação na Amazônia.

“Nós já temos biofábricas para a cadeia produtiva de cupuaçu e cacau, e temos planejamentos para a castanha, os azeites gourmet, o bambu, o açaí…”, listou.

Tudo isso envolve pesquisas científicas e o sequenciamento genômico de todas essas espécies vegetais.

“Também teremos escolas de negócios para a Amazônia, com 20 cursos para capacitar as pessoas”, informou.

O cientista trabalha num projeto para a criação de um grande instituto de tecnologia na região, a exemplo do Massachusetts Institute of Technology (MIT), dos Estados Unidos.

“Também precisamos pensar na Amazônia urbana, pois 65% da população local vive nas cidades”, chamou a atenção.

“Podemos encarar a bioeconomia da região não apenas com produtos primários, mas em desenvolver tecnologias para que isso melhore a qualidade de vida das pessoas, de modo que elas subam das classes D ou E para a classe B”, concluiu.

André Biernath, Enviado da BBC News Brasil a Sharm El-Sheikh (Egito). Imagem: Getty Images.