Por que cada vez mais pessoas estão vivendo até os 100 anos? – Parte 2/2

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Estamos chegando próximos à marca de 1 milhão de centenários

A Divisão de População da Organização das Nações Unidas (ONU) estima que, em 2021, mais de 621 mil pessoas tinham ultrapassado o centésimo ano de vida. A tendência é que esse número supere a marca de 1 milhão até o final desta década.

Em 1990, apenas 92 mil pessoas atingiram esse marco — o que, mesmo assim, não era pouca coisa.

Nem tão saudáveis assim

O que intriga ainda mais os especialistas em idade é o fato que algumas pessoas que chegam aos 100 anos não são exatamente um exemplo de boas práticas em saúde.

Ciência ainda está tentando descobrir o mecanismo do envelhecimento. Imagem: Getty Images.

Como mencionado anteriormente, Josefa fumou a maior parte da vida e cresceu na pobreza de uma região socialmente carente do Nordeste brasileiro.

Mais surpreendentemente, um artigo de 2011 publicado no periódico científico Journal of the American Geriatric Society, que estudou um grupo de 400 judeus americanos com 95 anos ou mais, encontrou uma profusão de maus hábitos.

Quase 60% dos participantes eram fumantes contumazes, metade deles tinha sido obesa durante a maior parte da vida e apenas 3% eram vegetarianos.

“A primeira coisa que precisamos dizer às pessoas interessadas em viver tanto tempo é não seguir dicas de estilo de vida de centenários ou supercentenários”, diz Richard Faragher, professor de biogerontologia da Universidade de Brighton, no Reino Unido, um dos principais especialistas em estudo do envelhecimento. .

“Há algo excepcional sobre eles. Porque muitos fazem exatamente o oposto do que sabemos que pode ajudar alguém a viver mais”, acrescenta o especialista.

Um escudo genético?

Os cientistas suspeitam que a genética desempenha um papel importante na longevidade.

Centenários (e supercentenários) parecem capazes de se proteger contra o desgaste que afeta os mais jovens com o passar do tempo. Eles também se mostram capazes de compensar até mesmo hábitos pouco saudáveis ​​que levam a maioria de nós à morte precoce.

Especialistas como Lord e Farragher estão trabalhando para identificar essas vantagens biológicas, que não são tão óbvias quanto se poderia pensar.

Francesa Jeanne Calment, que morreu aos 122 anos em 1997, é a única pessoa reconhecida por ter vivido além dos 120. Imagem: Getty Images.

Outro estudo com centenários judeus, este divulgado em 2020, mostrou que os indivíduos tinham tantas variantes genéticas que podem causar doenças tardias quanto a população em geral.

O número crescente de pessoas chegando a 100 também levou os cientistas a questionar se os limites da longevidade humana também serão estendidos.

A pessoa mais velha da história

Até esta data, a pessoa mais velha conhecida foi Jeanne Calment, da França, que morreu em 1997 aos 122 anos e é oficialmente a única a ter vivido além dos 120.

Pesquisadores da Universidade de Washington, nos EUA, afirmam que a longevidade extrema atingirá novos limites neste mesmo século — e possivelmente resultará em casos de pessoas que assoprarão 125 ou até 130 velas nos bolos de aniversário.

“Acreditamos que é quase certo que alguém quebrará o atual recorde de idade e que é bem possível que alguém possa viver até os 126, 128 ou 130”, estima Michael Pearce, estatístico e coautor do estudo.

Pearce e o professor Adrian Raftery usaram o International Database on Longevity, uma base de dados sobre expectativa de vida, para simular os limites de longevidade para as próximas décadas. Eles concluíram que há uma probabilidade próxima dos 100% de que o recorde de Calment será batido e uma chance de 68% de que alguém comemorará em breve um aniversário de 127 anos.

As regras do jogo do envelhecimento

No entanto, há muitas perguntas que a ciência ainda precisa responder para entender completamente o quebra-cabeça do envelhecimento.

Como podemos empurrar ainda mais os limites da longevidade humana?. Imagem: Getty Images.

Especialistas como Richard Siow, diretor de Pesquisa de Envelhecimento do King’s College London, no Reino Unido, acreditam que esse entendimento é crucial para abordar questões de qualidade de vida com uma população global cada vez mais envelhecida — a ONU estima que o mundo já é habitado por mais pessoas com mais de 65 anos do que por crianças com menos de 5 anos.

“A grande questão aqui não é discutir quanto tempo podemos viver, mas como podemos retardar o início do declínio relacionado à idade e permanecer saudáveis por mais tempo do que agora”, aponta Siow.

“Dessa forma, se tivermos a sorte de chegar à velhice, podemos aproveitar esses anos em vez de vivê-los em sofrimento.”

Organizações como a HelpAge International, uma rede que oferece apoio a idosos em todo o mundo, apontam que essa filosofia é crucial para ajudar a abordar o envelhecimento da população como uma oportunidade, e não como um fardo para os sistemas de saúde e bem-estar social.

A rainha Elizabeth II do Reino Unido tem se ocupado com o aumento de centenários no Reino Unido. Imagem: Getty Images.

“Essa visão fatalista que fala do envelhecimento como um problema não é o nosso alvo”, argumenta Eduardo Klien, porta-voz da HelpAge.

“Os idosos com boa saúde oferecem um enorme potencial para as sociedades de várias maneiras, inclusive na economia.”

Enquanto isso, pense na rainha Elizabeth 2ª. A monarca britânica, ela mesma quase uma centenária aos 96 anos, teve um aumento na carga de trabalho durante os últimos anos. Isso porque é um costume no Reino Unido que pessoas que completam 100 anos recebam uma carta da soberana.

A proporção de centenários no Reino Unido atingiu um recorde em 2020 e a tendência é que esse número só cresça daqui em diante.

No Brasil, segundo o último Censo do IBGE, em 2010, havia quase 24 mil centenários.

Fernando Duarte, BBC. Imagem: Getty Images. *Com reportagem adicional de Josué Seixas.