Corpo paralisado, mente ativa: o que passa na cabeça de quem tem catatonia

Segundo o Dr. Rogers, 'não é que as pessoas com catatonia não tenham pensamentos - talvez elas tenham pensamentos demais'. Imagem: Getty Images.

Como médico, às vezes sou chamado para ver um paciente que está completamente mudo no pronto-socorro.

Ele se senta imóvel, olhando para a sala. Eu ergo seu braço e ele permanece naquela posição. Alguém tira sangue para um exame e ele nem estremece. Ele não come nem bebe nada há um ou dois dias.

Começam a passar perguntas pela mente. O que há de errado com ele? Será que ele reagiria a outras pessoas? Ele tem alguma lesão no cérebro? Estaria fingindo? E – o mais difícil – como vou saber o que está acontecendo se ele não consegue me dizer?

Sou psiquiatra e pesquisador especializado em uma condição rara conhecida como catatonia, uma forma severa de doença mental que deixa as pessoas com problemas de fala e de movimentos. A catatonia pode durar algumas horas até semanas, meses ou mesmo anos. Algumas pessoas têm episódios recorrentes.

Conversei com médicos, enfermeiros, acadêmicos, pacientes e cuidadores sobre essa condição. E uma pergunta surge mais que qualquer outra: o que pensam as pessoas com catatonia? Será que eles chegam a estar pensando alguma coisa?

Quando uma pessoa quase não consegue falar ou mover-se, é fácil imaginar que ela não esteja consciente. Mas as pesquisas realizadas nos últimos anos demonstraram que não é o que acontece. Na verdade, quando algo acontece, é exatamente o oposto.

As pessoas com catatonia muitas vezes expressam extrema ansiedade e afirmam sentir-se sobrecarregadas de sentimentos. Ou seja, não é que as pessoas com catatonia não tenham pensamentos — talvez elas tenham pensamentos demais.

Mas quais serão esses pensamentos? O que a mente poderia fazer que fizesse você congelar?

Em um novo estudo, meus colegas e eu tentamos lançar um pouco de luz sobre esse assunto.

Centenas de pacientes

Observando os prontuários de centenas de pacientes que sofreram de catatonia, descobrimos que poucos deles haviam falado sobre o que aconteceu, seja no momento ou posteriormente. Muitos deles não sabiam ou não se lembravam do que havia acontecido.

Alguns descreveram sofrer um medo insuportável. Outros tinham consciência da dor de permanecerem por tanto tempo em estado de rigidez, mas pareciam incapazes de mover-se.

Alguns pacientes relatam terem sentido um medo insuportável. Imagem: Getty Images.

Mas o mais interessante foi termos encontrado pessoas que tinham, em certo nível, uma explicação racional para a catatonia. O prontuário de um paciente diz o seguinte:

“Eu o encontrei ajoelhado com a testa no chão. Ele disse que estava naquela posição para salvar sua vida e pedia continuamente que um médico do pescoço viesse vê-lo… Ele ficou falando que sua cabeça estava caindo do pescoço.”

De fato, se você realmente acreditasse que a sua cabeça estava em risco iminente de cair, talvez não fosse uma ideia tão ruim mantê-la no chão.

Em outros casos, havia vozes (alucinações) instruindo os pacientes a fazer certas coisas. Uma pessoa ouvia que sua cabeça iria explodir se ela se movesse — uma razão bastante convincente para permanecer imóvel. Outro paciente achava que Deus estava dizendo a ele que não comesse, nem bebesse.

A catatonia permanece uma condição misteriosa, a meio caminho entre a neurologia e a psiquiatria. Imagem: Getty Images.

Simulação da morte

Segundo uma teoria, a catatonia é similar à “simulação da morte” exibida por alguns animais. Quando enfrentam um predador com força ou tamanho considerável, algumas presas ficam congeladas, acreditando que o predador pode não observá-las.

Uma paciente do estudo descreveu nitidamente ter visto uma cobra (que também falou com ela). Não podemos afirmar a partir de um único exemplo que o seu corpo estava adotando uma defesa primitiva contra um predador, mas certamente é uma possibilidade.

A catatonia permanece sendo uma condição misteriosa, aprisionada a meio caminho entre a neurologia e a psiquiatria. Mas, compreendendo o que as pessoas podem estar sentindo, podemos oferecer confiança e empatia.

*Jonathan Rogers é médico psiquiatra clínico do University College London (UCL) Wellcome Trust, no Reino Unido.

Jonathan Rogers, The Conversation*. Imagem: Getty Images.