Jornalista russo vende Nobel para ajudar crianças ucranianas

Peça é arrematada por US$ 103,5 milhões, quebrando todos os recordes desse tipo de leilão. Dinheiro foi destinado ao Unicef, para ajudar menores refugiados devido à invasão russa da Ucrânia.

A medalha do prêmio Nobel da Paz do jornalista russo Dmitri Muratov foi arrematada nesta segunda-feira (20/06) em Nova York por 103,5 milhões de dólares, quebrando todos os recordes desse tipo de leilão. O dinheiro foi todo destinado ao Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), para ajudar crianças ucranianas refugiadas.

O lance vencedor para a peça de 196 gramas e coberta por 150 gramas de ouro foi feito por um comprador anônimo, por procuração, pelo telefone. A quantia em dólares corresponde, segundo a casa de leilões Heritage Auctions, a 100 milhões de francos suíços, indicando que o comprador possivelmente mora no exterior.

Ataques

Muratov ganhou o Nobel da Paz em outubro de 2021, juntamente com a jornalista filipina Maria Ressa, por seus esforços para preservar a liberdade de expressão em seus respectivos países, apesar de serem assediados e atacados pelos governos de seus países e receberem até ameaças de morte.

Ele ajudou a fundar o jornal russo independente Novaya Gazeta e era editor-chefe da publicação quando esta fechou em março, em meio à repressão do Kremlin contra jornalistas e dissidentes após a invasão da Ucrânia pela Rússia.

Desde que Putin assumiu o poder há mais de duas décadas, quase duas dúzias de jornalistas foram mortos, incluindo pelo menos quatro que trabalhavam para o jornal de Muratov. Em abril, ele disse que foi atacado com tinta vermelha enquanto estava a bordo de um trem russo.

Muratov tem sido altamente crítico em relação à anexação da Crimeia pela Rússia em 2014 e à guerra lançada em fevereiro que já fez quase 5 milhões de ucranianos fugirem para outros países em busca de segurança, criando a maior crise humanitária na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

“Estupefato”

O dinheiro arrecadado foi destinado a um programa do Unicef para crianças ucranianas deslocadas pelo conflito. Apenas minutos após o término da venda, o Unicef informou à casa de leilões que havia recebido a verba.

“Eu esperava que houvesse uma enorme solidariedade, mas não esperava que fosse uma quantia tão grande”, festejou Muratov após o término do leilão, iniciado quase três semanas antes e encerrado no Dia Mundial do Refugiado.

O leilão do prêmio foi ideia do próprio Muratov. Ele já tinha anunciado que doaria para caridade o prêmio em dinheiro que acompanha o Nobel, no valor de 500 mil dólares. O leilão online começou em 1º de junho para coincidir com o Dia International das Crianças. Muitos lances foram feitos por telefone ou online.

Muratov deixou a Rússia na quinta-feira para começar sua viagem a Nova York, onde os lances ao vivo começaram na noite de segunda-feira. No início de segunda, o lance mais alto era de apenas 550 mil dólares. Já se esperava que o preço entrasse numa espiral ascendente, mas não que superasse os 100 milhões de dólares.

“Não posso acreditar. Pessoalmente, estou estupefato”, disse Joshua Benesh, diretor de estratégia da Heritage Auctions. “Sabíamos que havia uma enorme onda de interesse nos últimos dias por pessoas que se comoveram com a história de Dmitri, pelo ato de generosidade de Dmitri”, afirmou.

Recorde de leilões do Nobel

Anteriormente, o valor mais alto já pago por uma medalha do Prêmio Nobel havia sido de 4,76 milhões de dólares em 2014, pela venda da moeda de James Watson, cuja codescoberta da estrutura do DNA lhe rendeu um Prêmio Nobel em 1962.

Três anos depois, a família de seu codestinatário, Francis Crick, recebeu 2,27 milhões de dólares pelo leilão, também realizado pela Heritage Auctions.

“Muratov consultou o Comitê do Nobel e recebeu permissão e apoio à sua decisão para que os lucros ajudem crianças e refugiados na Ucrânia”, disse o secretário do comitê que concede o prêmio, Olav Njolstad. “É um objetivo louvável. Só podemos parabenizá-lo pelo resultado e torcer para que a ajuda chegue a quem mais precisa”, acrescentou em e-mail, à agência de notícias AFP.

Deutsche Welle, md/ek (AFP, AP)