Por que os romances de escritório são inevitáveis

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Os romances entre colegas de trabalho deram seu jeito de acontecer até mesmo durante a pandemia, quando se tornaram menores as interações presenciais no escritório que outrora podiam despertar faíscas.

Dados de fevereiro de 2022 da Sociedade para Gestão de Recursos Humanos (SHRM) dos EUA sugerem que o romance no ambiente de trabalho pode, na verdade, ter aumentado à medida que os funcionários migaram para o “home office”.

Um terço dos 550 americanos entrevistados ​​respondeu que iniciou ou manteve um relacionamento com um colega de trabalho durante a pandemia — um aumento de 6% em relação a 2019.

Ou seja, mesmo durante quarentenas e lockdowns, as pessoas encontraram uma maneira de continuar namorando colegas de trabalho — um fato que ressalta a inevitabilidade do romance no escritório.

O ambiente de trabalho é um terreno fértil para o amor e o desejo, embora muitas empresas desaprovem o relacionamento entre colegas de trabalho e vejam isso como um pesadelo de RH.

Especialistas dizem que há razões específicas pelas quais os profissionais simplesmente não conseguem parar de se relacionar entre si — mesmo quando estão isolados durante uma crise de saúde global.

Não é de hoje

Apesar de o tema ser considerado de certa forma um tabu, 75% dos entrevistados da pesquisa da SHRM disseram que não tinham problema com o namoro entre colegas de trabalho. (Afinal, metade afirmou que já gostou de um colega em algum momento.)

E por mais que seja uma dor de cabeça para muitas empresas, esse tipo de romance existe há décadas, ou até séculos.

“Até mesmo voltando à era industrial, já havia alguma discussão sobre as pessoas se sentirem atraídas umas pelas outras no local de trabalho”, diz Amy Nicole Baker, professora da Universidade de New Haven, nos EUA, que estuda o romance no ambiente de trabalho e psicologia organizacional.

Já nos anos 1800, nos primórdios do trabalho executivo, havia interações românticas nos escritórios com mulheres e homens se envolvendo em ‘comportamentos que não são dignos de nota’, de acordo com os críticos da época.

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Mas muitas relações começam no trabalho, e isso não quer dizer que necessariamente terminam em escândalo (pelo contrário, pode levar a um final de conto de fadas, como os Obamas, que se conheceram em um escritório de advocacia de Chicago quando estavam na casa dos 20 anos).

Dados de 2017 mostram que um em cada 10 casais heterossexuais nos EUA afirma ter se conhecido no trabalho.

Considerando que alguns dados sugerem que as pessoas entre 20 e 50 anos nos EUA passam quase quatro vezes mais tempo com colegas de trabalho do que com amigos, isso parece ser praticamente inevitável.

“Não é de surpreender que tanta gente se interesse por pessoas no trabalho”, já que o trabalho vem “tomando cada vez mais nosso tempo” há anos, diz Vanessa Bohns, professora associada de comportamento organizacional da Universidade Cornell, nos EUA, que estuda a dinâmica do romance no ambiente de trabalho.

Enquanto os métodos mais comuns de encontrar parceiros oscilam — mais gente se conhece online agora, por exemplo, e menos por intermédio de amigos e da família —, encontrar amor no trabalho “é uma constante” estatisticamente, segundo Baker.

Essa constante se manteve até durante a pandemia, uma época em que se relacionar com colegas pode realmente parecer menos arriscado, já que você está fora do olhar atento do seu chefe ou de colegas de equipe. (Alguns colegas estão até trabalhando secretamente nas casas uns dos outros à medida que o trabalho remoto se estende.)

“Enquanto as pessoas estiverem interagindo juntas em um ambiente de trabalho compartilhado, você verá a mecânica básica da atração humana acontecendo”, prevê Baker, seja esse ambiente físico ou virtual.

E a psicologia por trás dessa mecânica continua inevitavelmente levando os colegas de trabalho a algo mais, mesmo durante uma pandemia.

‘Intimidade e familiaridade’

O ambiente de trabalho é um lugar privilegiado para o desenvolvimento de dois fatores-chave para a atração, diz Amie Gordon, professora assistente de psicologia da Universidade de Michigan, nos EUA, que estuda a psicologia dos relacionamentos.

Passar tanto tempo com alguém em um ambiente como o local de trabalho “muito provavelmente pode abrir caminho para o romance, por causa de todos os fatores que sabemos que contribuem para o romance: intimidade e familiaridade”, segundo ela.

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Primeiro, quanto mais uma pessoa vê algo (ou alguém), mais ela está disposta a gostar dela. Esse favorecimento da familiaridade é um viés psicológico chamado efeito de mera exposição.

“Simplesmente ver alguém repetidamente” pode levar à atração, diz Gordon.

Da mesma forma, pesquisas sobre romance no local de trabalho mostram que estar na mesma proximidade de alguém por muito tempo pode ajudar a estimular a preferência por essa pessoa; quanto mais vemos alguém fisicamente próximo, e quanto mais interações temos com ela, mais rápido se constrói a atração interpessoal.

(Esse viés pode até se aplicar a chefes que favorecem funcionários que passam mais tempo com eles.)

Mas esse viés não se limita de forma alguma à proximidade física. “É também uma proximidade emocional e uma proximidade intelectual”, diz Baker.

Seja por e-mail, Zoom ou Slack, “vocês ainda estão interagindo uns com os outros”, diz ela. Essa exposição e interação consistentes ainda geram preferência, independentemente da localização física — o que pode explicar por que o romance no escritório sobreviveu na era do trabalho remoto.

Outro fator que transcende um escritório físico é a preferência das pessoas por aquelas semelhantes a elas — o que poderia abranger o trabalho, considerando que os colegas escolheram a mesma carreira e empresa.

“Se ambos são advogados, ou têm a mesma formação, ou pensam o mundo da mesma maneira, essa similaridade também vai promover uma afeição e compreensão”, explica Baker.

Essa química pode ser ampliada quando as pessoas enfrentam um problema juntas. Pesquisas mostram há muito tempo que situações estressantes podem gerar laços sociais.

Mas, de acordo com Baker, o mesmo fenômeno se aplica “totalmente” ao local de trabalho:

“Pense em todos os fatores de estresse comuns no local de trabalho. Você tem crises que surgem: pode ser um chefe tóxico, pode ser a logística do trabalho, longas jornadas, trabalho intenso.”

Seja virar uma noite terrível trabalhando ou um desentendimento com um cliente, “passar por algo difícil juntos leva a uma sensação de ‘nós'”, explica Gordon.

É inevitável — e agora?

Embora romances no escritório sejam praticamente inevitáveis — e amplamente aceitos —, ainda são complicados.

Em primeiro lugar, o relacionamento entre colegas pode aumentar o risco de denúncias de assédio sexual e de ambiente de trabalho hostil, além de criar conflitos de interesse.

Mais frequentemente, um romance no escritório também pode deixar o resto da equipe desconfortável e afetar o desempenho.

Observadores do romance podem se sentir incomodados, porque “você tem normas bem claras no local de trabalho sobre o que é um comportamento aceitável. Uma vez que alguém da equipe tem um relacionamento duplo — que não é apenas de colega de trabalho — isso muda a norma de uma maneira estranha”, diz Bohns.

“Você não sabe mais o que é apropriado.”

Mas, dado que o romance no escritório não vai desaparecer, alguns especialistas dizem que as empresas inteligentes permitirão que os funcionários namorem, garantindo que os limites profissionais não sejam ultrapassados.

“Gerenciar isso, em vez de fingir que não existe — ou não deveria existir — é a melhor abordagem”, avalia Johnny C Taylor Jr, CEO da SHRM.

Ele acredita que a notificação obrigatória — pelo menos para o RH e o supervisor hierárquico direto de um funcionário — é fundamental (e muitas empresas têm os chamados ‘contratos de amor’, que exigem que os trabalhadores façam exatamente isso).

Se você está entrando em um relacionamento no escritório, os especialistas sugerem que você reflita sobre seus motivos e avalie os prós e contras.

Essencialmente, se você estiver envolvido com um chefe ou subordinado, eles recomendam comunicar imediatamente o relacionamento ao RH e pedir uma realocação.

Mas se você está namorando um colega, uma situação que Baker diz que a maioria das pessoas considera menos arriscada ou problemática do que namorar alguém em um nível hierárquico diferente, cabe a você contar a qualquer pessoa além do RH.

Saiba apenas que o resto de sua equipe “vai descobrir”, observa Taylor.

Baker acredita que quanto mais cedo abrir o jogo, melhor; porque quanto mais alguém espera para revelar um relacionamento, mais os outros vão começar a “sentir que estavam escondendo algo deles” e “vão reagir negativamente”.

Eles podem repassar mentalmente as interações passadas com você e seu colega e reavaliar quaisquer comentários que cada pessoa fez, ou de repente suspeitar de por que vocês dois fizeram uma viagem a trabalho, ou se vocês estão compartilhando recursos ou informações que o resto da equipe não tem.

“Quanto mais as pessoas tiverem que reavaliar o passado, mais problemático” pode ser, adverte Gordon.

Todos esses riscos e complicações do romance no escritório existem, quer as pessoas estejam compartilhando uma mesa ou trocando mensagens no Slack de diferentes códigos postais.

Mas, apesar dessas regras e situações de potencial vulnerabilidade, os romances de escritório ainda acontecem— e com todos os fatores psicológicos envolvidos, é difícil culpar os colegas por se apaixonarem.

Ainda assim, é importante que os profissionais estejam cientes das implicações, não importa o quão relaxada sua equipe possa ser, ou quão triviais as repercussões possam parecer.

Afinal, nem todo romance no escritório dura para sempre — e não é divertido ver o rosto do seu ex nas chamadas de Zoom todos os dias.

Leia a íntegra desta reportagem (em inglês) no site BBC Worklife.

Bryan Lufkin, BBC Worklife. Imagem: Getty Images.