A realidade de um estudante quilombola

Edivan: "Quero seguir carreira jurídica e ajudar pessoas que, como eu, têm seus direitos ignorados e desrespeitados"

Apesar de ter meu potencial desacreditado por alguns devido à minha origem e condição financeira, percebi que a perseverança é a única forma de conquistar o sucesso, conta Edivan Silva dos Santos, do interior da Bahia.

“Qual a finalidade de ir à escola e se dedicar aos estudos?” Esse foi um questionamento importante para mim, pois me fez entender que, se não houvesse motivos bem definidos, certamente havia algo a ser corrigido na maneira de educar. Durante o ensino fundamental, no sexto ano, fui reprovado. É desconfortável olhar para trás e se dar conta de que todo o tempo e energia investidos por meses a fio não foram recompensados e que o progresso escolar ia por água abaixo.

Essa frustração vinha até mim para abrir meus olhos em relação aos meus propósitos. Eu precisava ter um objetivo ao frequentar a escola, caso contrário apenas perderia tempo, o que assisti acontecer com muitos de meus colegas, que, infelizmente, não compreendiam o impacto de uma formação acadêmica.

Nesse sentido, apesar da experiência ruim que tive, pude contar com alguns estímulos externos que me impulsionaram muito a me dedicar aos estudos, como ver os méritos dos alunos que se destacavam e toda honraria que isso significava, assim como perceber o esforço da minha família para me manter na escola. Eles me apoiaram e incentivaram a prosseguir nos estudos.

Vivo em uma comunidade rural, quilombola, de condição socioeconômica muito vulnerável, localizada em uma cidade interiorana da Bahia chamada Camamu, e faço parte de uma família de baixa renda, que, há gerações, obtém sustento através da atividade agrícola e possui um nível muito baixo de escolaridade. Por falta de condições financeiras, muitos de meus tios e tias, bem como minha mãe, não tiveram a oportunidade de estudar, pois foi necessário trocar a escola pelo trabalho em busca do mantimento.

Alternar entre o trabalho no campo e o estudo representava uma dificuldade para mim, visto que eu passava as manhãs lavrando e retornava à minha casa apressado ao meio-dia para não perder o ônibus escolar, sempre lotado.

Outra barreira que me apareceu foi a ausência de acesso à internet, pois, ainda que eu tenha um vantajoso currículo escolar, com boas notas e “títulos” de destaque, como quando fui convidado a um evento pedagógico para representar todo contingente de alunos da cidade, sei que para conseguir uma pontuação expressiva no Enem preciso ir além dos conteúdos propostos por onde estudei e procurar, na internet, uma forma alternativa de me preparar para o exame.

Para isso, contei com o apoio da Secretaria Municipal de Educação da minha cidade, que me cedeu a conexão à internet. Também me ofereceu espaço para estudar no colégio da minha comunidade, a 300 metros da minha casa e que está temporariamente fechado a aulas presenciais em função da pandemia de covid-19. O curso que escolhi foi Direito.

Meu desejo é seguir carreira jurídica e ajudar pessoas que, como eu, têm seus direitos ignorados e desrespeitados. Isso me causa indignação. Admito que não é fácil a luta pela tão sonhada vaga em uma universidade pública, mas, apesar de ter meu potencial desacreditado por alguns devido à minha origem e condição financeira, bem como fatores negativos internos; a ansiedade, por exemplo, a perseverança é a única forma de conquistar o sucesso – e é nela que eu aposto.

Texto: Edivan Silva dos Santos / Deutsche Welle.


Vozes da Educação é uma coluna quinzenal escrita por jovens do Salvaguarda, programa social de voluntários que auxiliam alunos da rede pública do Brasil a entrar na universidade. Revezam-se na autoria dos textos o fundador do programa, Vinícius De Andrade, e alunos auxiliados pelo Salvaguarda em todos os estados da federação. Siga o perfil do Salvaguarda no Instagram em @salvaguarda1