O ‘computador humano’ que ajudou a desvendar novas galáxias no Universo

Imagem: Emmanuel Lafont..

Um século atrás, o Universo parecia um lugar muito menor. Muitos astrônomos estavam convencidos de que nossa galáxia, a Via Láctea, representava todo o cosmos.

Isso mudou em 1923, quando o astrônomo Edwin Hubble apontou o telescópio do Observatório do Monte Wilson, na Califórnia, em direção a uma espiral brilhante difusa distante no céu noturno, a Nebulosa de Andrômeda.

Andrômeda, observou Hubble, estava muito longe para fazer parte da Via Láctea. Não era uma nebulosa, mas uma galáxia.

Uma espiral de um trilhão de estrelas, a Galáxia de Andrômeda está a cerca de 2,5 milhões de anos-luz de distância da Terra.

A observação notável de Hubble não teria sido possível sem o trabalho de Henrietta Swan Leavitt, que nem sequer usava um telescópio.

Em vez disso, Leavitt usava uma lupa — apontada não para cima, mas para baixo — para analisar uma delicada placa de vidro fixada em uma moldura de madeira.

Um lado da placa de vidro era revestido com emulsão fotográfica e pontilhado com a impressão fantasmagórica de milhares de estrelas capturadas em sua superfície.

As estrelas pretas iluminadas na superfície branca revelavam uma inversão do céu noturno visto a olho nu. Era assim que Leavitt experimentava o Universo.

Leavitt era um dos muitos “computadores humanos” que trabalhavam no Observatório do Harvard College no fim do século 19 e no início do século 20.

Este grupo, formado apenas por mulheres, descobriu dezenas de novas, nebulosas e asteroides, assim como milhares de “estrelas variáveis”, que são definidas por seu brilho crescente e decrescente.

Leavitt descobriu mais de 2 mil estrelas variáveis. E sua busca por essas estrelas a levou a um achado ainda maior — o método para medir distâncias no espaço.

Conhecida como relação período-luminosidade, a descoberta de Leavitt permitiu que os astrônomos medissem a distância em uma escala intergaláctica e deu a Hubble a fórmula que ele precisava para enxergar mais além no Universo.

O astrônomo Edward Pickering e as mulheres que eram chamadas de ‘computadores’ de Harvard. Imagem: Alamy.

“Toda a nossa percepção do Universo mudou completamente como resultado de sua descoberta”, afirma Wendy Freedman, astrônoma e astrofísica da Universidade de Chicago, nos EUA.

Depois de se interessar por astronomia no último ano de estudo, Leavitt conseguiu uma vaga de aprendiz no Observatório do Harvard College em 1895, aos 27 anos.

Na época, um número cada vez maior de mulheres como Leavitt estava se formando com níveis acadêmicos mais elevados, segundo a historiadora Margaret Rossiter, que pesquisou o papel da mulher na ciência na virada do século 20.

Elas ainda eram em grande parte excluídas de dar aulas em universidades e posições de liderança, mas os departamentos de astronomia ficavam satisfeitos em contratá-las para apoiar seus projetos científicos, que exigiam um grande número de trabalhadores mal remunerados.

Leavitt foi recrutada pelo diretor do Observatório de Harvard, Edward Pickering, que liderava um projeto de várias décadas para fotografar todo o céu noturno e, em seguida, classificar e catalogar os espectros de suas estrelas.

De acordo com os papéis de gênero do século 19, as mulheres eram vistas como candidatas ideais para esse trabalho de classificação, que exigia paciência e atenção aos detalhes — qualidades que, de acordo com o pensamento da época, as mulheres incorporavam naturalmente.

Em paralelo, pensava-se que os homens eram mais voltados para a liderança e o trabalho intelectual de observação e teoria.

Cargos como o de Leavitt eram normalmente de baixa remuneração e baixa hierarquia, com pouco ou nenhum espaço para promoção. Nessas posições, as mulheres podiam aplicar suas habilidades “femininas” sem representar uma ameaça para seus colegas homens, tanto em termos de prestígio quanto de remuneração.

Leavitt (à direita) com Annie Jump Cannon, uma das únicas mulheres que teve permissão para usar o telescópio de Harvard. Imagem: Alamy.

De fato, quando Pickering decidiu encher sua equipe de mulheres, era isso que ele tinha em mente.

“Para obter a maior eficiência, um observador habilidoso nunca deveria ser obrigado a perder tempo com o que poderia ser feito igualmente bem por um assistente com um salário muito mais baixo”, escreveu Pickering no Relatório Anual de 1898 do Observatório de Harvard.

Ele pagava aos “computadores” 25 centavos por hora, cerca de US$ 1,5 mil por ano, enquanto os homens do Observatório ganhavam pelo menos US$ 2,5 mil anualmente.

Com exceção de Annie Jump Cannon, que ingressou no Observatório um ano depois de Leavitt, as mulheres não tinham permissão para usar os telescópios.

O ajuste desse equipamento e a captura das fotos das estrelas eram feitos por homens.

As placas fotográficas de vidro eram entregues na “sala dos computadores” no segundo andar da ala leste do Observatório para análise e cálculo.

Lá, as mulheres passavam os dias curvadas sobre essas placas. Elas classificavam os espectros das estrelas, mediam seu brilho e catalogavam suas descobertas. O trabalho era intenso, desgastante e repetitivo.

Quando Leavitt assumiu seu posto na sala dos computadores, foi incumbida de determinar a magnitude (a medida do brilho de uma estrela) de estrelas variáveis ​​na região polar norte a partir das placas de vidro.

Uma razão pela qual a luz dessas estrelas oscila é porque elas estão pulsando: comprimindo e liberando gás em um ciclo regular.

Para saber se uma estrela variava, ela alinhava duas placas do mesmo pedaço de céu, uma era uma estrela preta negativa, e a outra positiva. As estrelas se anulavam, exceto aquelas cujo brilho variava.

Leavitt ainda não sabia, mas a relação entre o padrão de variação e a magnitude geral da estrela era o segredo para medir sua distância da Terra.

Texto: Leila McNeill / BBC Future / BBC News Brasil.