5 soluções ‘invisíveis’ que tornam cidades mais seguras – Parte 2/2

Imagem: 12019 / Pixabay.

Há coisas que estão na nossa frente, mas passam despercebidas. Essa é a matéria-prima do 99% Invisible (99% Invisível, na tradução literal), um podcast popular que nasceu em setembro de 2010 primeiro como um segmento de rádio transmitido por uma emissora pública local nos Estados Unidos.

Como seu próprio site explica, trata-se um programa “sobre todo o pensamento por trás das coisas que não pensamos: a arquitetura e o design praticamente invisíveis que moldam nosso mundo”.

Na última década, o projeto não parou de crescer e agregar sucessos: seus mais de 430 episódios já acumulam quase 500 milhões de downloads feitos por uma legião fiel de ouvintes em todo o mundo.

O jornal Chicago Tribune decreveu o 99% Invisible como “o melhor podcast que já existiu nos 20 anos de história do podcasting comercial”.

A qualidade da produção do programa tem muito a ver com isso. Mas o fascínio pelas coisas escondidas à vista de todos foi confirmado com o lançamento e o sucesso de vendas do livro The 99% Invisible City (sem tradução para o português), escrito pelo criador do programa, Roman Mars, juntamente com Kurt Kohlstedt, um dos seus principais colaboradores.

3. Grafite oficial

Mais do que invisíveis, essas marcas no chão e na parede são incompreensíveis para a maioria das pessoas. Você já deve ter reparado em inscrições, círculos e setas coloridas que de repente aparecem nas ruas e nas calçadas, muitas vezes próximos de uma escavação, de bueiros ou de caixinhas de energia, gás e outros serviços.

Esses grafites multicoloridos muitas vezes sobrevivem à escavação por um tempo — e ninguém sabe ao certo o que eles indicam e se servem para informar a localização de tubos e cabos subterrâneos.

Muitas das marcas sobrevivem por mais tempo que os trabalho das equipes que entendem o significado delas

“Esse é um dos meus exemplos favoritos daquelas coisas que você não percebe até que começa a notar”, disse Kohlstedt à BBC News Mundo.

“É uma inovação relativamente recente, que começou a se popularizar há cerca de 50 anos e foi projetada para dizer aos funcionários das concessionárias e outros trabalhadores da construção civil exatamente o que passa sob a rua”, explica ele.

O azul geralmente é usado para identificar canos de água potável

“As cores dizem algo, a anotação diz algo. É um sistema de informação extremamente rico e, embora seja uma linguagem para especialistas, todos podem aprender a lê-la”, acrescenta.

Por exemplo, nos EUA — onde o sistema se tornou popular depois que um trabalhador causou uma explosão gigantesca em 1976 ao perfurar acidentalmente um ducto de petróleo que passava por baixo de uma rua de Los Angeles — as marcas vermelhas são para cabos elétricos, o laranja é para gás ou outros materiais combustíveis e o azul designa canos de água potável.

Esse “idioma”, no entanto, varia de acordo com o país e a cidade. No Reino Unido, os cabos de telecomunicações são marcados em verde, cor usada nos EUA para designar drenos e canais de esgoto.

O importante, porém, é que essas marcas simples feitas com um pouco de tinta reduzem significativamente a chance de erros e acidentes, o que deixa nossas cidades mais seguras — além de adicionar um pouco de cor a elas.

4. Postes à prova de acidentes

Há um capítulo no livro de Kohlstedt que fala sobre “fracasso planejado”.

Nas páginas, ele explica que os postes que sustentam sinais de trânsito, semáforos ou cabos de serviços essenciais devem ser resistentes o suficiente para resistir a ventos, tempestades, tsunamis e terremotos.

“Mas, muito ocasionalmente, esses mesmos postes devem ser capazes de fazer algo crucial: eles precisam quebrar facilmente com o impacto”, explicam Mars e Kohlstedt.

Um bom sinal de trânsito deve “saber quebrar”. Imagem: Istock.

Quando esses materiais são atingidos por um carro em movimento, eles se envergam e quebram, de forma a reduzir os danos e salvar vidas.

Essa “destruição planejada” acontece a uma certa altura do poste, de modo que a parte inferior passe sob o veículo enquanto a parte superior voe, sem ferir as vítimas do acidente.

“Eles são projetados para reduzir os danos aos veículos e para proteger pedestres, passageiros e motoristas”, explica Kohlstedt.

“Os postes estão integrados de tal forma à cidade que passamos por eles há tantos anos e nunca imaginamos qual é a sua verdadeira função. Isso só acontece, é claro, se alguém esbarra em um durante um acidente”, observa.

5. Redutores de velocidade inteligentes

O último exemplo lembrado por Kohlstedt é uma versão particular de um dispositivo encontrado nas ruas de todo o mundo: os redutores de velocidade, também conhecidos popularmente como lombadas.

Esta versão específica, no entanto, se assemelha mais a grandes “almofadas” colocadas uma ao lado da outra em cada uma das faixas da rua.

Redutores de velocidade instalados nas ruas de Londres

“O conceito aqui é brilhante e direto”, diz Kohlstedt.

Basicamente, ambulâncias e veículos de emergência têm um eixo mais largo do que os carros normais.

“Portanto, é possível criar redutores que obrigam carro de passeio a frear, mas que uma ambulância consegue cruzar sem ter que diminuir sua velocidade”, completa.

Como Kohlstedt aponta, esse é um exemplo de uma modificação engenhosa em uma tecnologia já existente há anos.

“E é uma daquelas coisas que, depois de entender o racional por trás, você começa a notar em todos os lugares”, destaca.

Um redutor para carros, mas não para ambulâncias.

Essa lógica também é o que explica o grande sucesso do 99% Invisible nas versões podcast e livro.

A iniciativa passou a última década ajudando a descobrir de uma forma extremamente útil e agradável esse maravilhoso mundo oculto que temos ao nosso alcance.

E também pode servir de inspiração para os interessados ​​em transformar as cidades de todo o mundo em espaços mais confortáveis, seguros e atraentes.

Texto: Arturo Wallace / BBC News Mundo / BBC News Brasil. Imagem: 12019 / Pixabay.