Parte 2/2 – ‘Vigilantes da covid-19 estoicos? Negacionistas céticos? O que a filosofia helenística pode ensinar-nos sobre esta pandemia

Imagem: Blanca López.

“A filosofia é uma escola de vida.” Esta frase, tão simples e certeira, do filósofo, ensaísta e professor Eduardo Infante, pode não ser intuitiva para todos. Muitos associam a filosofia que estudaram no colégio a frases enigmáticas de aplicação prática muito duvidosa, como “o ser é”, de Parmênides, e “ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”, de Heráclito. Nestes tempos de incerteza, podemos recorrer à ciência, mas ela não resolve a mais fundamental das questões: em que consiste uma vida digna e como deve ser vivida?

A questão é ainda mais premente em contextos de excepcionalidade e de crise como o que nos coube viver no último ano…

O equilíbrio epicurista: faz sentido quebrar as regras se isso pode causar problemas?

Os seguidores desta doutrina eram Epicuro e seus prosélitos, a chamada escola do jardim. Os epicuristas pregavam um hedonismo moderado e inteligente baseado na aritmética do gozo: há prazeres que, desfrutados sem prudência nem comedimento, causam dor. Adicione, subtraia e decida por si mesmo o que realmente te convém.

Epicuro, aquele que nos ensinou que você pode se divertir, mas sem exagerar. UNIVERSAL HISTORY ARCHIVE / GETTY IMAGES

Hoje é tentador considerar epicurista qualquer pessoa que assuma com naturalidade que não faz sentido quebrar as regras de isolamento social (e se divertir) se isso envolve um sério risco de adoecer ou de que seus familiares adoeçam. Infante acrescenta que os epicuristas “eram quase tão frugais quanto os estoicos, apesar da suposta rivalidade irreconciliável entre as duas escolas. Epicuro deu maior ênfase à fruição de prazeres simples, como a amizade ou a conversa, mas seu conceito de luxo material e prazer sensorial não ia muito além de compartilhar um pedaço de queijo, uma jarra de vinho e algumas azeitonas”. Estoicos e epicuristas concordavam nos fundamentos: “Ambos pregavam um certo desapego e a ênfase na autonomia do ser humano, que deveria preservar sua independência pessoal como um tesouro e não se tornar um adorador de falsos deuses como o dinheiro, o poder ou o desejo”.

Pirro de Élis, um homem que acreditava que o conhecimento é uma questão de perspectiva. HERITAGE IMAGES / GETTY IMAGES

A dúvida cética: questionar as regras sem deixar de obedecê-las

Os céticos eram os seguidores de Pirro de Élis, um homem que acreditava que o conhecimento é uma questão de perspectiva e, portanto, não fazia afirmações categóricas, apenas expressava sua opinião. Hoje, os pirrônicos poderiam nos dizer que há algo de subjetivo em toda suposta verdade.

Os cientistas, em geral, são nossos céticos saudáveis, prudentes e informados, porque sabem que a dúvida é a ferramenta mais eficaz para obter o conhecimento verdadeiro. Hoje, chamamos os céticos radicais e arbitrários de negacionistas, paranoicos conspiratórios ou terraplanistas, mas Pirro não teria muito a dizer a eles. A ênfase que os distinguia de outras escolas da época tem a ver “com a relutância em assumir de maneira acrítica as normas da matilha”. O indivíduo tem o privilégio e a obrigação de pensar por si mesmo e tirar as próprias conclusões, “aceitar as ideias alheias de forma acrítica equivale a trair a própria razão”. Mas isso não implica desconsiderar nem desobedecer às leis e normas do comportamento coletivo quando são racionais e justas: “Os céticos não eram relativistas morais radicais, rebeldes sem causa nem insubmissos crônicos”.

Diógenes de Sinope, sempre procurando homens honestos. UNIVERSAL HISTORY ARCHIVE / GETTY IMAGES

O descaramento cínico: não é se comportar como um cachorro, mas pensar como um

Cínico por excelência era Diógenes de Sinope, o filósofo que, segundo a lenda, vivia em um barril e caminhava pelas ruas de Atenas com uma lamparina à procura de homens honestos de verdade. A linha desta escola era uma síntese revolucionária do estoicismo e do ceticismo. Individualistas radicais, eles nos teriam exortado a pensar por nós mesmos, com rigor, mas sem preconceitos, sem medo e com liberdade.

O cinismo tem reputação muito ruim. Hoje atribuímos essa qualidade a quem se comporta de maneira interesseira, egoísta e mesquinha. Os cínicos de Diógenes estavam mais para livre-pensadores, propensos a protestos fundamentados e à desobediência civil justificada. Infante encontra a essência do cinismo na exortação de Diógenes a viver e pensar “como um cachorro”. Ou seja, a “retornar à essência, à natureza e, em certo sentido, à vida selvagem”. Para o filósofo de Sinope, “o homem é uma criatura domesticada pela conformidade com as normas da tribo. Para recuperar a sua plena dignidade e independência deveria pensar como o cão, que se guia pelos próprios instintos, mas agregando essa qualidade humana que é o uso da razão”. Infante destaca também o caráter “descarado” dessa escola: “O cínico é descarado porque pensa por si mesmo e não renuncia à sua liberdade e integridade. Vamos comparar isso com a quantidade de situações do cotidiano em que o sentimento de vergonha nos leva hoje em dia a trair a nós mesmos no mundo do trabalho ou nas redes sociais”.

Texto: Miquel Echarri / El País. Imagem: Blanca López.