‘Nomadland’: como é a vida de milhares de pessoas que vivem e viajam em trailers nos EUA

Mais e mais pessoas estão adotando uma vida nômade nos Estados Unidos. Imagem: Getty Images.

“Não sou uma sem-teto. Não tenho casa, mas isso não é a mesma coisa.”

É assim que Fern, uma ex-professora de uma pequena cidade do meio-oeste americano, reage ao encontrar um de seus ex-alunos em um supermercado.

A cena se passa no filme Nomadland, que, com seis indicações ao Oscar, é um dos favoritos aos principais prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos no dia 25 de abril, em Los Angeles.

A atuação pode render à atriz americana Frances McDormand sua terceira estatueta.

McDormand interpreta com delicadeza e sobriedade uma mulher que, após ficar viúva e enfrentar a destruição econômica e social de sua cidade, se muda para um trailer com o qual embarca em uma jornada sem destino definido.

O filme é uma adaptação de Nomadland: Surviving America in the Twenty-First Century (Nomadland: Sobrevivendo aos EUA no século 21), um livro de 2017 da jornalista americana Jessica Bruder sobre o fenômeno das pessoas mais velhas que, no contexto da Grande Recessão de 2008, adotaram um estilo de vida nômade em busca de empregos sazonais em todo o país.

Robert Wells, que todos chamam de Bob, interpreta ele mesmo em Nomadland. Imagem: Getty Images.

Junto com McDormand e o ator David Strathaim aparecem no filme – interpretando a si mesmos – Linda May, Charlene Swankie e Bob Wells, os três nômades que protagonizam o livro.

Em entrevista à BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC, Wells diz não estar surpreso com o sucesso do filme.

“A história em que se baseia é muito boa, McDormand é sensacional e eu estava muito confiante”, diz este homem de 65 anos e de barba branca característica. Aos risos, ele brinca que “tolera” a repentina atenção da mídia.

“Tenho estado muito ocupado, mas sou grato pelo que estão fazendo. O filme é maravilhoso e acho que é bom para a minha comunidade.”

Uma vida sobre rodas

Uma comunidade que, segundo dados da Associação da Indústria de Veículos Recreativos (conhecidos como RV na sigla em inglês e de todos os tipos de formas e tamanhos), é composta por pelo menos 1 milhão de pessoas que vivem em casas sobre quatro rodas em tempo integral.

Veículos recreativos são usados para viagens de férias, mas também podem servir de residências permanentes. Imagem: Getty Images.

“Cerca de 25 anos atrás, decidi me mudar para um trailer porque me divorciei e não podia mais sustentar meu estilo de vida”, diz Bob Wells, uma figura central na vida nômade moderna nos Estados Unidos e presidente da Homes On Wheels Alliance (Aliança das Casas Sobre Rodas).

“Um dos motivos pelos quais tentei tanto divulgar o conhecimento da vida nômade é que meu filho se suicidou e eu precisava de um motivo para viver, para acordar todas as manhãs”.

“Sempre foi meu objetivo fazer com que as pessoas soubessem que elas têm opções, que existe uma outra maneira de viver, e me entreguei a esse propósito após a morte do meu filho”, conta.

Como Wells em seus primeiros dias, muitas pessoas que entram nesta vida o fazem por necessidade.

Mas existe outro grupo, cada vez mais numeroso, que decide lançar-se nessa empreitada por apostar em sua própria liberdade.

Apostando na liberdade

É o caso de Amber Baldwin, uma americana de 49 anos que, há quatro, vendeu sua casa e quase todos os seus pertences em Seattle para morar em um trailer com o qual viajou grande parte do país.

Amber Baldwin queria uma vida para si mesma, sem arrependimentos, e seu canal do YouTube permitiu que ela largasse o emprego e continuasse viajando. Imagem: Amber Baldwin.

“Já fazia algum tempo que vinha pensando em viajar de trailer, mas me envolvi com o trabalho e com o estilo de vida da ‘América corporativa'”, explica ela, falando da idílica Key West, no extremo sul da Flórida.

“De repente vi que não podia mais, estava em um emprego muito estressante, tinha problemas de saúde e disse a mim mesma que não poderia continuar”.

“Sempre tive paixão por viagens na estrada e achei que seria bom levar minha casa comigo, acompanhada do meu cachorro. Comecei a procurar nos canais do YouTube e finalmente me decidi, comprei um trailer, vendi a casa e comecei a viajar, trabalhando remotamente”.

“Seis meses depois decidi que queria mais liberdade. Saí da empresa onde trabalhava e abri minha própria empresa online, um canal no YouTube, em que, além de compartilhar minhas viagens, ofereço conselhos práticos sobre a vida nômade e até sobre finanças pessoais.”

Baldwin relata sua jornada e publica uma variedade de cursos gratuitos em storychasing.com.

Nota da Redação: Em breve publicaremos a Parte 2/2 desta matéria.

Texto: Beatriz Diez / BBC Mundo / BBC News Brasil.