Parte 2 – Como seu intestino pode ajudar seu cérebro

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O intestino de um paciente pode não ser o lugar mais óbvio para buscar as origens da depressão. Mas esse foi o palpite do químico britânico George Porter Phillips no início do século 20.*

Enquanto percorria as enfermarias do notório Bethlem Royal Hospital, em Londres, Phillips observara que seus pacientes com melancolia frequentemente sofriam de constipação severa, junto com outros sinais de “entupimento geral dos processos metabólicos” – incluindo unhas quebradiças, cabelos sem lustro e tez amarelada.

Inicialmente, poderíamos pensar que esses problemas fisiológicos foram causados pela depressão, mas e se o contrário fosse verdadeiro? Phillips se perguntou, então, se seria possível aliviar a depressão tratando o intestino.

Para provar essa hipótese, ele alimentou os pacientes com uma dieta de baixo teor calórico, sem carnes, exceto peixes. Também lhes ofereceu uma bebida láctea fermentada conhecida como kefir, que contém as bactérias lactobacillus, um micróbio “amigável” que já era conhecido por facilitar a digestão.

Surpreendentemente, funcionou. Dos 18 pacientes testados por Phillips, 11 foram curados completamente. Outros dois apresentaram melhora significativa.

Foi a prova que faltava de que nossas bactérias intestinais podem ter uma profunda influência sobre nosso bem-estar mental.

* Introdução da Parte 1. Clique no link abaixo para ler a Parte 1/2 completa

Novos caminhos

Foster diz que a pesquisa neste campo está acelerando rapidamente, conduzida por cientistas ligados a universidades e empresas.

Em última análise, esses pesquisadores esperam que suas descobertas levem a um novo tipo de tratamento para doenças como a depressão.

“O que surpreende é que os animais que receberam a flora intestinal ‘depressiva’ se comportaram de forma ‘depressiva'”, explica Julio Licinio, da New York Upstate Medical University. Imagem: Getty Images.

Os antidepressivos existentes hoje funcionam alterando o equilíbrio de substâncias químicas como a serotonina no cérebro, mas não são eficazes para todos os pacientes: apenas dois em cada dez que tomam antidepressivos apresentam sinais de melhora, além do efeito placebo. E, embora ajudem muitos pacientes, terapias da fala, como a terapia cognitivo-comportamental, são igualmente imprevisíveis. Como resultado, muitos pacientes não são tratados ou lutam para encontrar um tratamento adequado.

Algumas tentativas – como o estudo de Phillips em 1910 – alimentaram pacientes com bebidas fermentadas, como o kefir, que podem introduzir no intestino bactérias e proteínas que são conhecidas por serem benéficas à digestão, ou fibras solúveis conhecidas como “prebióticos”, que ajudariam a refazer nossa flora intestinal. Infelizmente, muitos desses estudos tendem a ser pequenos, com poucos participantes, e seus resultados foram ambivalentes: em alguns estudos, as intervenções reduziram os sintomas com sucesso; em outros estudos, provaram não ser melhores do que um tratamento com placebo.

Uma explicação, segundo Foster, é que os estudos fracassados não se focaram em pacientes que se beneficiariam mais com esse tipo de tratamento. Afinal de contas, há muitas causas de depressão, e embora problemas na flora intestinal possam ser a causa subjacente da depressão ou ansiedade de algumas pessoas, em outros, o gatilho pode ser bem diferente. Para eles, é improvável que uma bebida probiótica faça uma grande diferença em seus sintomas.

Para complicar ainda mais, o microbioma de cada um de nós é único – assim, qualquer tratamento que afete a flora intestinal deve levar em conta essas diferenças. No geral, se compararmos o interior dos intestinos de dois indivíduos, o grau de semelhança é de apenas 10%.

Por esse motivo, ela acha que precisamos encontrar maneiras mais sofisticadas de ajustar o tratamento ao paciente. “É aí que o eixo intestino-cérebro vai nos ajudar, na medicina de precisão.” A esperança, diz Foster, é “mapear ‘biótipos’ ou grupos de indivíduos que compartilham de uma determinada biologia que pode estar determinando seus sintomas”. Nesse sentido, seria recomendável testar se um paciente tem inflamação alta ou baixa antes de decidir sobre o tratamento mais adequado para ele.

Licinio também se mantém cautelosamente otimista de que pesquisas futuras vão identificar terapias voltadas para eixo intestino-cérebro. Ele diz que os significativos efeitos colaterais dos antidepressivos limitaram o desenvolvimento de novos tratamentos farmacêuticos – mas essa abordagem poderia evitar esses problemas. “Você não está adulterando o cérebro”, diz ele, “então, acho que qualquer efeito colateral que você tenha será menos problemático”.

Acredita-se que Dieta Mediterrânea tenha efeito poderosamente positivo na saúde mental. Imagem: Getty Images.

Dieta mediterrânea

Embora ainda tenhamos que aprimorar nosso conhecimento sobre a relação entre nosso intestino e nosso cérebro, o que sabemos hoje aponta para a crescente evidência de que uma dieta saudável e balanceada pode ser uma importante medida preventiva para reduzir o risco de desenvolver uma doença como a depressão.

Muitos desses estudos examinaram a “dieta mediterrânea” – um termo abrangente para descrever dietas ricas em legumes, verduras, frutas, nozes, frutos do mar, gorduras insaturadas e óleos vegetais, e baixo teor de açúcar refinado e carne vermelha e processada.

Um estudo realizado na Espanha revelou que pessoas que seguiam a dieta mediterrânea tradicional tinham cerca de metade da probabilidade de serem diagnosticadas com depressão durante um período de quatro anos.

“Os dados sobre a importância da nutrição para a saúde mental e cerebral agora são extensos e altamente consistentes”, diz Felice Jacka, psiquiatra nutricional da Universidade Deakin, na Austrália, e autora de Brain Changer: The Good Mental Health Diet (Transformando seu cérebro: a boa dieta de saúde mental, em tradução livre).

Pesquisas vêm comprovando que a dieta mediterrânea aumentou a diversidade de bactérias intestinais e reduziu outras alterações fisiológicas, como a inflamação crônica, que também parece acompanhar a depressão.

Mais de um século depois da experiência de Phillips, a depressão continua sem cura, mas para algumas pessoas, pelo menos, um intestino saudável pode ser um primeiro passo importante para uma mente mais feliz.

Texto: David Robson / BBC Future. Imagem: Imagem: Getty Images.