Parte 2 – O que é o ‘pensamento catedral’, uma das grandes lições de 2020, segundo o filósofo Roman Krznaric

No Japão, há um movimento chamado 'design futuro', que considera, ao tomar uma decisão, o impacto de uma medida nas futuras gerações. Imagem: Getty Images.
Introdução da Parte 1/2...

Quando o filósofo australiano Roman Krznaric fala da América Latina, seu contentamento é evidente.

Ele conta à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, sobre “a enorme espontaneidade e conexão emocional” que encontrou na região.

E embora tenha visitado vários países latinos ao longo dos anos, a convivência com povos indígenas na Guatemala o marcou profundamente.

Foi lá que teve “uma visão completamente diferente da vida”, em grande parte graças ao “incrível vínculo que eles têm com a terra”.

“E acredito que a conexão com o mundo vivo que você encontra na cultura maia é realmente valiosa em meio à cultura de consumo hiperurbana de hoje.”

A ideia de que “precisamos nos reconectar com a terra e com os longos ciclos do tempo” o cativou.

Em seu livro The Good Ancestor (“O bom ancestral”, em tradução livre), Krznaric, que deu aula de sociologia e política na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, denuncia que vivemos na “era da tirania do agora”, que tem um “curto-prazismo frenético” na raiz das crises que estamos enfrentando.

Ele acredita, no entanto, que temos “habilidades exclusivamente humanas” para combatê-lo. Ele cita, por exemplo, o “pensamento catedral”, o que ele chama de “rebeldes do tempo” e movimentos inspiradores ao redor do mundo, como o “design futuro” no Japão.

A seguir, confira um trecho da entrevista que Krznaric concedeu à BBC News Mundo.

No Japão, há um movimento chamado ‘design futuro’, que considera, ao tomar uma decisão, o impacto de uma medida nas futuras gerações

Sabemos que nossos políticos mal conseguem ver além da próxima eleição ou da última manchete. Mas também sabemos que nossas ações estão tendo consequências para todas as futuras gerações.

Me dei conta disso em parte porque nos anos 1990 trabalhei como cientista político e, embora fosse aparentemente um especialista em democracia, nunca me ocorreu que estávamos privando de direitos essas gerações, às quais não demos espaço, mesmo quando foram afetadas por nossas ações.

Existem alguns movimentos realmente inspiradores em diferentes partes do mundo que estão tentando abrir espaço para as próximas gerações.

No meu livro The Good Ancestor, eu escrevi sobre um movimento no Japão chamado “design futuro”, que é baseado em uma ideia praticada por comunidades aborígenes americanas, e que consiste em que no processo de tomada de decisão seja considerado o impacto de uma medida nas próximas sete gerações.

No Japão, os habitantes de uma determinada localidade são convidados a discutir e traçar planos para aquele lugar.

O autor ficou fascinado com ‘a conexão com o mundo vivo que você encontra na cultura Maia’.

Eles geralmente são divididos em dois grupos: a um deles é dito que eles são os moradores do presente, e à outra metade é dito que eles são os habitantes que viverão lá a partir do ano 2060.

Um dos resultados surpreendentes é que os residentes que se imaginam a partir de 2060 apresentam planos muito mais radicais e transformadores para suas cidades, seja sobre saúde, investimentos ou ações contra as mudanças climáticas.

Trata-se de um movimento popular que se espalhou por todo o país. Muitas cidades progressistas em outras partes do mundo podem adotar esse mecanismo para revitalizar a democracia, para reinventá-la, para dar voz às gerações futuras usando a imaginação.

BBC News Mundo – O que você descobriu ao escrever o livro The Good Ancestor?

Krznaric – O que realmente me surpreendeu é que comecei a ver que existe um movimento do que chamo de rebeldes do tempo em diferentes partes do mundo. São pessoas que se dedicam ao pensamento de longo prazo e à justiça intergeracional.

‘Faltamos aula para te ensinar uma lição’, diz o cartaz exibido em um dos protestos do movimento Fridays for Future. Imagem: PA

Eu não sabia que havia tantos projetos incríveis ao redor do mundo. Por exemplo, na Escócia, a artista Katie Paterson criou um projeto de arte chamado Future Library, em que a cada ano, durante 100 anos, um autor famoso doa um livro (inédito) que permanecerá intocado até o ano 2114.

Quando este ano chegar, os 100 livros serão impressos em papel feito a partir de mil árvores que foram plantadas em uma floresta nos arredores de Oslo. É como um presente para o futuro.

Há também o silo global de sementes no Círculo Polar Ártico, que busca armazenar milhões de sementes dentro de um bunker de rocha indestrutível, projetado para durar 1.000 anos. O objetivo é preservar a biodiversidade vegetal do planeta.

E há outros movimentos como o Fridays for Future (“Sextas-feiras pelo futuro”). Se trata de pensar no longo prazo, sobre — de certa forma — ser um bom ancestral.

Tudo isso me dá uma sensação de esperança. Embora eu saiba que estamos caminhando para três ou quatro graus de aquecimento global e entre um e dois metros de elevação do nível do mar até 2100, também vejo esses movimentos incríveis de desenvolvimento e outros de ordem legal que buscam dar direitos às pessoas do futuro.

BBC News Mundo – Algumas pessoas veem o futuro como algo muito distante, 100 anos é muito tempo, e o que acontecer não nos afetará. Você disse que “tratamos o futuro como um posto avançado colonial distante”. O que você quer dizer com isso?

Krznaric – Acho que colonizamos o futuro. A humanidade, principalmente nos países ricos, trata o futuro como um posto colonial avançado distante, onde podemos despejar detritos livremente (e causar) danos ecológicos e riscos tecnológicos como se não tivesse ninguém lá.

No Círculo Polar Ártico, há um bunker onde milhões de sementes estão guardadas para preservar a biodiversidade vegetal do planeta. Imagem: PA Media.

É um pouco como quando a Grã-Bretanha colonizou a Austrália nos séculos 18 e 19. Eles se basearam em uma doutrina legal agora conhecida como terra nelius, terra de ninguém. E se comportaram como se não existissem indígenas. Claro que havia, e é assim que tratamos o futuro, como se não houvesse ninguém lá.

Mas há 7,7 bilhões de pessoas vivas hoje. Somente nos próximos dois séculos, dezenas de bilhões de pessoas nascerão. E como elas vão nos julgar? Entre elas, estarão nossos netos e os netos deles, seus amigos e suas comunidades.

Como vão olhar para nós pelo que fizemos ou deixamos de fazer quando tivemos oportunidade?

Claro que acho que na vida cotidiana esse futuro pode parecer muito distante. Não podemos sentir o aumento do nível do mar ou da temperatura em 2100, mas podemos usar nossa imaginação. Isso é extraordinário.

Você e eu podemos sentar e imaginar nossos filhos. Por exemplo, pense no aniversário de 90 anos do seu filho. Ele está cercado pela família e amigos e olha pela janela. Que tipo de mundo existe lá fora? Talvez seja uma bela utopia ou um mundo em chamas.

É um experimento mental. O que diria de mim a seus amigos e familiares, o que diria sobre seu ancestral falecido há tanto tempo, sobre o legado que deixei para ele?

E, ao fazer esse exercício, me dou conta, e esta é a parte realmente importante, de que não estão sozinhos. Vejo que fazem parte de uma comunidade, mas também da rede do mundo vivente: do ar que respiram, da comida que está disponível, da água que bebem.

Então, se me preocupo com a vida dele, preciso me preocupar com toda a vida.

‘Nossa tecnologia, por exemplo, é desenvolvida para ativar nosso cérebro de curto prazo. Eu chamo de cérebro de marshmallow, aquele que nos leva a apertar o botão ‘compre agora”, diz Krznaric. Imagem: Getty Images.

Acho que muitas pessoas podem usar esse tipo de conexão familiar com o futuro como uma ponte para algo muito mais universal. Você sente que deve cuidar não apenas de seu filho e dos filhos deles, mas também de todas as crianças e do mundo do qual farão parte.

Esse experimento utiliza uma parte única do cérebro humano, que é pensar no longo prazo. A maioria das criaturas, dos animais, não têm essa capacidade de pensar tão à frente. Somos incríveis por poder fazer isso e, embora seja algo extraordinário, não a usamos com muita frequência. Fazer isso pode nos motivar a agir.

Nossa tecnologia, por exemplo, é desenvolvida para ativar nosso cérebro de curto prazo. Eu chamo de cérebro de marshmallow, aquele que nos leva a apertar o botão “compre agora”.

BBC News Mundo – Estamos prestes a nos despedir de um ano marcado por uma pandemia que teve efeitos trágicos para milhões de pessoas. Como 2020 será lembrado nos próximos anos?

Krznaric – Acho que depende da perspectiva pela qual você olha para isso. Avancemos para 2120, vamos nos lembrar deste ano? Talvez não. É possível que não lembremos dele por causa da pandemia, mas como mais um ano em que não tomamos medidas contra as mudanças climáticas.

‘Devemos aprender a nos tornar pensadores de catedrais. Devemos começar a planejar no longo prazo. Se não conseguirmos aprender esta lição de 2020, não teremos aprendido quase nada, e isso será uma tragédia’, afirma Krznaric. Imagem: Getty Images.

Mais um ano em que não agimos para evitar a perda da biodiversidade, pode ser que a pandemia passe a ser vista como um pequeno problema, apenas um momento em que olhamos para trás na história.

Mas, é claro, também acredito que pode ter nos mostrado onde falhamos e o que é possível.

Temos visto fracassos terríveis de alguns governos ao fazer frente à pandemia, mas, ao mesmo tempo, vimos países que realmente enfrentaram esse desafio de maneira eficaz.

Embora a covid-19 tenha muito a ver com o imediato, com o presente, com uma família que perdeu um ente querido ou um governo lidando com o desemprego em massa, para mim, a covid-19 é um momento de olhar para trás e ver se aprendemos algo sobre a importância de pensar no longo prazo.

É perceber que esta não é a única pandemia que vamos enfrentar. Haverá outras depois dessa, sobretudo em um mundo mais globalizado.

Portanto, devemos aprender a nos tornar pensadores de catedrais. Devemos começar a planejar no longo prazo. Se não conseguirmos aprender esta lição de 2020, não teremos aprendido quase nada, e isso será uma tragédia.

Mas se pudermos reconhecer que devemos ser bons ancestrais, que não podemos simplesmente responder ao presente, que devemos pensar no longo prazo, seja em relação à ecologia do planeta, aos riscos tecnológicos ou à próxima pandemia que pode estar no horizonte. Se fizermos isso, podemos nos chamar de bons ancestrais, os ancestrais que as gerações futuras merecem.

BBC News Mundo – O que a pandemia revelou sobre nós mesmos?

Krznaric – Acho que o que ela criou é uma revolução de empatia.

‘Pense no aniversário de 90 anos do seu filho (…) Que tipo de mundo existe lá fora? Talvez seja uma bela utopia ou um mundo em chamas’, reflete o autor. Imagem: Getty Images.

Na minha rua, por exemplo, normalmente mal nos falávamos, mas assim que eclodiu a covid-19, de repente criamos um grupo de WhatsApp com mais de 100 domicílios, e estamos entregando comida para pessoas vulneráveis ​​ou idosos que não podem sair, compartilhamos receitas de pão e outros tipos de coisas.

E acho que já vimos isso em todo o mundo: as comunidades se uniram para ajudar umas às outras.

Os seres humanos são muito bons em crises. Vamos além de simplesmente sentir medo. Não nos limitamos a fechar a porta para cuidar de nós mesmos.

Como aconteceu depois do 11 de setembro e durante o furacão Katrina, as comunidades costumam trabalhar muito bem juntas, e acho que o que a covid-19 mostrou de muitas maneiras, é um lado muito positivo da nossa capacidade de cooperar, confiar e mostrar empatia.

Junto a todas as tragédias, a covid-19 nos disse algo sobre nosso “eu” social, que somos homo empathicus (empáticos), e não apenas homo self-centricus (autocentrados).

Somos o mamífero mais sociável que existe, e é isso que estamos vendo.

Claro, ainda somos muito egocêntricos, gostamos de apertar o botão “compre agora” e ficar paralisados ​​no curto prazo. Mas a covid-19 suscitou algo de bom entre os seres humanos, sobretudo no nível comunitário.

BBC News Mundo – Também vimos pessoas que por algum motivo não querem usar máscara e que dizem que é seu direito não usar. Outras que participam de manifestações para protestar contra as medidas de confinamento porque dizem que ameaçam sua liberdade.

Krznaric – Sim, acho que isso também nos diz algo sobre a natureza humana. É o que o filósofo escocês David Hume dizia no século 18: os seres humanos são tanto pombas quanto cobras. Temos nossos próprios interesses, mas também somos cooperativos.

A pandemia desencadeou inúmeras manifestações de solidariedade e empatia ao redor do mundo. María Branyas, de 113 anos e considerada a mulher mais longeva da Espanha, na casa de repouso de Olot (Girona), onde mora.EFE

Haverá pessoas que não querem usar máscara, que não querem fazer parte desse movimento comunitário para o bem público.

E isso, em parte, fala sobre como nós, seres humanos, somos. Fala dos valores que herdamos do século 20, os valores do individualismo e uma ênfase excessiva em si mesmo, e nem sempre de valores coletivos.

Mas claro, você tem razão, esse outro lado também veio à tona porque há lados mais sombrios da natureza humana. Somos seres complexos.

Não sou utópico sobre o que é o ser humano, mas também acho que a solidariedade prestada é muito notável.

Que tem gente que não quer usar máscara, não me surpreende, o que me surpreende no bom sentido é essa explosão, por exemplo, de todos os grupos de WhatsApp que se formaram para ajudar, da cooperação que tem ocorrido entre as pessoas.

Texto: Margarita Rodríguez / BBC News Mundo. Imagem: Imagem: Getty Images.