O que é o ‘pensamento catedral’, uma das grandes lições de 2020, segundo o filósofo Roman Krznaric

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Quando o filósofo australiano Roman Krznaric fala da América Latina, seu contentamento é evidente.

Ele conta à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, sobre “a enorme espontaneidade e conexão emocional” que encontrou na região.

E embora tenha visitado vários países latinos ao longo dos anos, a convivência com povos indígenas na Guatemala o marcou profundamente.

Estamos entrando no ano 2021, mas o que será que podemos aprender com as catedrais construídas séculos atrás?

Foi lá que teve “uma visão completamente diferente da vida”, em grande parte graças ao “incrível vínculo que eles têm com a terra”.

“E acredito que a conexão com o mundo vivo que você encontra na cultura maia é realmente valiosa em meio à cultura de consumo hiperurbana de hoje.”

A ideia de que “precisamos nos reconectar com a terra e com os longos ciclos do tempo” o cativou.

Em seu livro The Good Ancestor (“O bom ancestral”, em tradução livre), Krznaric, que deu aula de sociologia e política na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, denuncia que vivemos na “era da tirania do agora”, que tem um “curto-prazismo frenético” na raiz das crises que estamos enfrentando.

Ele acredita, no entanto, que temos “habilidades exclusivamente humanas” para combatê-lo. Ele cita, por exemplo, o “pensamento catedral”, o que ele chama de “rebeldes do tempo” e movimentos inspiradores ao redor do mundo, como o “design futuro” no Japão.

A seguir, confira um trecho da entrevista que Krznaric concedeu à BBC News Mundo.


Pergunta – Por que você acha que o curto-prazismo se tornou uma constante na forma como vivemos?

Roman Krznaric – Hoje, quando as pessoas falam sobre “curto-prazismo”, imediatamente pensamos que nossos telefones celulares são o problema. Nós os checamos 110 vezes por dia, estamos imersos em uma distração digital.

Roman Krznaric é autor de vários livros. Imagem: Kate Raworth / Arquivo pessoal.

Mas as raízes são muito mais antigas. Na Europa, remonta ao relógio medieval, quando o tempo começou a ser medido e dividido em pequenas frações.

No século 14, os primeiros relógios mediam cada hora. No século 18, eles já mediam cada minuto, e no século 19, ganharam o ponteiro dos segundos. E isso fez o tempo acelerar. Agora temos negociações de ações feitas em nanossegundos.

Uma das razões pelas quais o curto-prazismo é um grande problema agora é porque percebemos que no século 21 temos muitos desafios de longo prazo: há as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade; novas tecnologias como inteligência artificial e o bioterrorismo, por exemplo.

Há muitas questões que requerem pensar no longo prazo, e a pandemia é uma delas.

Sabemos que os países que criaram planos para a pandemia de longo prazo lidaram com o vírus de maneira mais eficaz do que aqueles que não criaram, por exemplo, os Estados Unidos e o Brasil.

Essa é uma das razões pelas quais sabemos que o planejamento de longo prazo é mais importante do que nunca.

Segundo o filósofo, estamos imersos em um ‘curto-prazismo frenético’. Imagem: Getty Images.

Para mim, tem sido interessante ver o que tem sido comentado em relação a meu novo livro: quantas pessoas da área médica ou de saúde pública disseram que não há planejamento de longo prazo suficiente nesse setor, seja no Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS, na sigla em inglês) ou nos sistemas de saúde de outros países.

Acho que a pandemia está nos fazendo ver problemas de curto prazo, mas precisamos criar resiliência em nossos sistemas de saúde para planejar nossa resposta a pandemias que possam surgir.

E já estamos começando a conseguir que cada vez mais governos percebam que precisam disso, não apenas em resposta a algo como a covid-19, mas em termos de planejamento de longo prazo com outras questões, como a crise climática.

Pergunta – Em seu livro, você fala sobre a importância do “pensamento catedral”. Em que consiste e como pode ser desenvolvido?

Krznaric – O pensamento catedral é a capacidade de conceber e planejar projetos com um horizonte muito amplo, talvez décadas ou séculos à frente e, claro, é baseado na ideia de catedrais medievais. Na Europa, as pessoas estavam começando a construí-las e sabiam que não as veriam concluídas no decorrer de suas vidas.

A Catedral de Canterbury é uma das mais antigas da Inglaterra, e o que vemos hoje é resultado de 900 anos de obras de construção e ampliação. Imagem: Reuters/Toby Melville/File Photo.

Se trata de fazer algo com uma visão de muito longo prazo. Os seres humanos foram muito bons nesse tipo de pensamento, muito mais do que imaginamos.

Essa forma de pensar possibilitou construir a Grande Muralha da China ou viajar ao espaço, construir Machu Picchu ou Brasília: não era atuar apenas no aqui e agora.

Acho que é uma habilidade que podemos desenvolver. As empresas podem fazer isso para criar planos de sustentabilidade de 100 anos. Na verdade, muitas já estão fazendo isso. Os governos também podem fazer o mesmo.

O ‘pensamento catedral’ vai além do aqui e agora, afirma o especialista. Imagem: Getty Images.

Vou te dar um exemplo muito específico: você se lembra do acidente nuclear no Japão após o terremoto e tsunami de 2011?

A usina de Fukushima entrou em colapso e causou um desastre, mas havia outra usina chamada Onagawa que foi atingida com ainda mais força pelo tsunami, mas sobreviveu porque o engenheiro que a projetou a construiu cerca de 30 metros mais alta do que realmente era necessário.

Ele sabia que poderia haver um tsunami, embora na época talvez a probabilidade não fosse muito alta. Esse é um pensamento de longo prazo, é o tipo de pensamento que precisamos.

Algumas cidades europeias, como Amsterdã, planejam não ter carros movidos a combustível fóssil em suas ruas após 2030. Elas querem uma economia 100% circular a partir de 2050.

Pergunta – Quais são as implicações do “curtoprazismo”, não apenas sob uma perspectiva pessoal, mas para a democracia como sistema?

Krznaric – Acredito que existe um problema terrível com a democracia e que não damos direitos ou uma voz representativa às futuras gerações.

NOTA da Redação: Em breve publicaremos a Parte 2/2 desta matéria.

Texto: Margarita Rodríguez / BBC News Mundo. Imagem: Imagem: Getty Images.