Coronavírus: como será o mercado de trabalho após pandemia e quais habilidades serão mais valorizadas

Imagem: Slon_Pics / Pixabay.

Quando falamos sobre o futuro do mecado de trabalho, os especialistas deixam uma coisa clara: o futuro é hoje.

E ainda mais porque a nova pandemia de coronavírus acelerou muitas coisas, e boa parte delas no ambiente de trabalho.

A covid-19 adicionou uma boa dose de incerteza ao mundo do trabalho, mas também algumas oportunidades.

É nas oportunidades que se concentram as consultoras e especialistas em liderança peruanas Patricia Cánepa e Patricia Merino. Ambas são autores de O futuro do trabalho (2020), livro no qual elas propõem uma série de estratégias para navegar no mundo atual do trabalho, contemplando o cenário pós-covid.

Nós conversamos com elas na edição digital do Hay Festival Arequipa sobre as mudanças que a covid provocou, o futuro e as competências que devem ser desenvolvidas para se ter sucesso no mundo do trabalho.

‘O trabalho remoto veio para ficar’

Para Cánepa e Merino, a tecnologia é o grande motor de mudança quando falamos sobre o futuro do trabalho e aí o impacto da pandemia foi enorme.

“A aceleração da adoção digital nos primeiros meses da pandemia fez com que tudo viesse cinco anos adiantado. Portanto, o que vimos como uma fase mais distante está aqui agora”, explica Merino, que também é professora no MBA da CENTRUM em liderança.

“A transformação digital chegou e não há como voltar atrás.”

Para as autoras, a pandemia demoliu o mito de que o trabalho remoto não funciona. Imagem: Getty.

Merino destaca ainda que no ambicioso cenário “um mito importante foi quebrado: o de que o trabalho remoto não funciona”.

“Questões como teleducação, telemedicina e teletrabalho geraram mudanças profundas que vieram para ficar.”

No entanto, ela destaca que os desafios, principalmente nos países da América Latina, ainda são importantes, em dois aspectos: educação e infraestrutura.

“O desafio educacional é muito forte. O futuro do trabalho traz uma mentalidade de eterno aprendiz, que não vem sozinho”, afirma. “É importante que haja coordenação entre a empresa e o Estado para facilitar os recursos de educação online que viabilizam esse processo.”

Mas o especialista está otimista, já que “questões que não existiam foram colocadas em pauta, democratizando o acesso à saúde e à educação”.

“Isso está forçando as pessoas a trabalhar em questões que nem sequer haviam sido pensadas. Os governos foram obrigados a colocar essas questões na agenda e isso é bom”, acrescenta.

Habilidades técnicas e habilidades humanas

Além de levantar as tendências do futuro do trabalho, em seu livro, Merino e Cánepa decompõem uma série de competências que são fundamentais no ambiente de trabalho atual.

Cánepa, que também é docente de liderança, explica que este conjunto de competências deve ser dividido em dois: por um lado, as técnicas e, por outro, as humanas.

Patricia Cánepa é consultora e palestrante sobre liderança e futuro do trabalho. Imagem: Nick Otto.

“No lado técnico, focamos em três coisas: você tem que dominar as habilidades da sua especialidade, e isso deve ser combinado com as habilidades tecnológicas, ou seja, habilidades que permitem que você se administre no mundo de hoje e, enfim, tudo que tem a ver com habilidades de gestão.”

Porém, no mundo do trabalho de hoje, “as competências humanas são cada vez mais importantes e é o que estudos nos dizem, que as organizações têm dificuldade em conseguir”, afirma a consultora.

E entre essas habilidades humanas, em um cenário como o atual, destacam-se a colaboração, a empatia e a criatividade.

“Enfrentamos um mundo ágil, um mundo onde você tem que colaborar, senão não se consegue os resultados com a velocidade ou com a eficiência que se espera”, diz Cánepa.

“Entramos em um ambiente muito incerto, onde há muita neblina na estrada e onde você tem que se apoiar nos outros e confiar na inteligência colaborativa.”

Além disso, diante de problemas cada vez mais complexos, é importante desenvolver o pensamento crítico, essa capacidade de visualizar diferentes perspectivas, “e de abraçar a diversidade, buscando ativamente pessoas que pensem diferente”, acrescenta Merino.

“Se em uma equipe todos começarmos a pensar da mesma forma, estamos fazendo algo errado.”

A colaboração se torna vital no cenário de trabalho de hoje. Imagem: Getty.

Repensar a nós mesmos como seres criativos

A pandemia gerou um novo cenário em que os modelos de organização ágil assumem uma importância muito maior.

“São organizações muito planas, com poucos níveis, onde você tem uma série de células que trabalham com chefes tribais”, diz ela.

“As organizações ágeis criaram uma necessidade urgente de desenvolver habilidades humanas mais do que nunca, porque o que se move dentro dessas organizações são processos sociais e então a criatividade se torna crítica. Na verdade, é a habilidade mais procurada no Linkedln.”

Nesse sentido, os autores convidam as pessoas a “se repensarem como seres criativos”.

“Nesta era, ser criativo implica identificar problemas e para isso é preciso primeiro ter empatia, saber identificar problemas e, se você identifica um problema, automaticamente pensará na solução”, diz Merino.

“Essa é a criatividade que deve ser promovida: chama-se criatividade prática, que se define como a capacidade de identificar e resolver problemas.”

Cánepa e Merino propõem que nos repensemos como seres criativos. Imagem: Getty.

“As pessoas precisam se reconectar com seus egos criativos, desmistificando essa ideia de criatividade como um dom extraterrestre, que apenas alguns têm.”

“Se você seguir um método, pode ser uma pessoa criativa. O problema é que as pessoas pensam que isso vai acontecer através de uma epifania.”

Um processo de reinvenção contínua

Outro dos conceitos mais poderosos no mundo do trabalho atual é o aprendizado ativo.

“A melhor forma de aprender é fazendo e espera-se que nas organizações ágeis as pessoas se envolvam em projetos onde efetivamente coloquem em prática essa premissa”, afirma Cánepa.

“Experimentar e errar, para aprender ao longo do caminho. Pessoas curiosas são necessárias para se explorar.”

E essa curiosidade tem que ser vitalícia.

Patricia Merino trabalha com questões de liderança no Peru. Imagem: Patricia Merino.

“É preciso entrar em um processo de reinvenção contínua, porque o futuro do trabalho é um processo de aprendizagem contínua, que você deve seguir”, explica Merino.

Por esse motivo, em seu livro, as autoras criaram o que chamam de “mapa da reinvenção”.

“Isso consiste primeiramente sobre o que uma pessoa tem a oferecer: a proposta de valor atual, que é a pedra angular de sua proposta de reinvenção. Em seguida, vamos ajudá-lo a identificar seus objetivos futuros e, com eles, você obtém um protótipo de uma proposta de valor futuro”, explica Merino.

“Queremos contribuir para o empoderamento das pessoas, para que se reinventem de acordo com as necessidades que o futuro do trabalho impõe.”

E com relação a essas necessidades, Merino e Cánepa mencionam três áreas onde muitas oportunidades de trabalho surgirão na região: educação, saúde e energia verde.

Texto: Mar Pichel / BBC News Mundo. Imagem: Slon_pics / Pixabay.