O mundo real morreu, viva o mundo real

Foto: Pexels/Pixabay

O confinamento se tornou um experimento inédito de primazia das relações virtuais, mas também um clamor por recuperar o contato com os outros

Quando vivíamos no mundo físico real, nessa época que agora parece tão distante, nos refugiávamos talvez demais no virtual, e agora que somos forçados ao virtual, queremos voltar correndo ao físico. Em um momento de confinamento forçado, o virtual se expande, se sobressai com firmeza, nos ajuda de modo extraordinário e se consolida em uma sociedade que já alertava para seu peso excessivo, mas que é forçada a se render, pelo menos momentaneamente, à tela e ao teclado. A crise do coronavírus nos surpreende com um sistema de relações virtuais bem lubrificado em comparação com as reações físicas em declínio nesta era de redes sociais e conexão constante.

Mas a vitória é só momentânea. A dependência excessiva à qual fomos forçados nos fez repentinamente almejar um contato mais físico no qual uma mensagem do WhatsApp não é suficiente, um tipo de relação que volte a passar pelos sentidos: o visual, com videoconferências que até os mais resistentes estão praticando, ou o sonoro, que nos permite ouvir e captar a voz em um grau de empatia obviamente superior ao que está escrito. O aumento das ligações telefônicas do fixo (134%, segundo dados da Vodafone na última segunda-feira) ou o crescimento geral do tráfego de voz (84% no final de semana, segundo a Telefônica) nos devolveu à realidade de uma necessidade humana às vezes adiada pela velocidade em que vivemos.

“Estes tempos de turbulência e peste nos levam a recuperar os telefonemas. Estávamos nos relacionando em nível de WhatsApp, tec, tec, rápido, rápido, e as pessoas voltaram a descobrir o telefone, estão felizes falando sem parar”, diz a filósofa Amelia Valcárcel. “De repente, estamos em uma situação que não pensávamos ver, presos na irrealidade, como se o mundo tivesse parado, e é uma experiência que nunca tivemos. Quero crer que será bom para nós. Estávamos correndo muito e provavelmente voltaremos a correr, mas esta experiência ficará introjetada e nos ajudará a medir o que é importante.”

O ensaísta César Rendueles, autor de Sociofobia, el Cambio Político en la Era de la Utopía Digital (Sociofobia, a mudança política na era da utopia, em tradução livre), vai na mesma linha, ao enfatizar a dependência que essa situação põe em evidência: “Estamos comprovando precisamente que dependemos de coisas muito pouco virtuais: não só de médicos, mas de repositores de supermercados, transportadores e babás. E assim nos damos conta da natureza fictícia dessa centralidade que demos ao digital”, reflete Rendueles. “Vivemos em uma bolha digital na qual todos tuitamos de modo obsessivo, e é claro que agora as coisas podem ser facilitadas pelo teletrabalho, mas do que realmente dependemos na realidade é de outras coisas.”

As crianças, que já compõem a geração das telas, com tablets quase desde o berço, na opinião de Rendueles “vão se cansar do celular, precisam brincar lá fora. Quando a clausura terminar, veremos as repercussões, haverá ansiedade, medo de contatos, mas as crianças vão passar por cima disso e vão preferir o parque. ”

Um campo de provas

Mas há dois planos diferentes nesta reflexão sobre o virtual e o físico: um é o que afeta os relacionamentos e o outro o que afeta o trabalho. E neste, todo o potencial que podemos liberar, graças à tecnologia e à interconexão, é um campo de testes sem precedentes com consequências que podem ser muito positivas.

“A única coisa boa que se pode dizer sobre isto é que vai ser um experimento impossível em outras circunstâncias sobre as possibilidades do alcance do teletrabalho”, reflete Marta Peirano, especialista em redes e Internet e autora de El Enemigo Conoce el Sistema (O inimigo conhece o sistema, em tradução livre). “Em nenhum outro contexto seria possível fazer um experimento desses, que o Governo obrigasse as empresas a facilitar o teletrabalho e que pudéssemos estudar seu efeito no tráfego, poluição e transportes. E, felizmente, isso acontece com essas estruturas em andamento.”

Mas, ao mesmo tempo, de acordo com Peirano, há riscos: “Isso vai aprofundar bastante o fosso digital. Enviamos crianças para casa com tarefas digitais, e quanto à população que não tem TV a cabo, que não tem~Internet?”

Outro risco é o da dependência excessiva das redes, que  Byung-Chul Han, filósofo de origem coreana que é professor em Berlim, já tinha como alvo em A Sociedade da Transparência (Editora Vozes). “Haverá muitos perdedores nesta crise, mas também beneficiários. As plataformas digitais terão grandes lucros e seu valor está nos dados, não nas conexões”, diz Peirano. “E como a Internet é um recurso crítico, o Governo tem que garantir que todas as crianças tenham acesso à aula virtual e que todos os pacientes nos hospitais possam receber visitas virtuais.” Ela recorda o que aconteceu em Porto Rico, quando oFacebook garantiu a comunicação “que o Governo não poderia garantir. Se a única opção para ter dados ou a Internet for o Facebook, não podemos mais escolher.”

Ao mesmo tempo, esta crise “nos permite fortalecer os laços com as pessoas que estão mais próximas de nós”, diz Peirano. “Levei três dias para perceber que, se eu abrir a janela, me deparo com uma vizinha com quem interajo no WhatsApp. Sua verdadeira comunidade não é a do WhatsApp, mas os que ficaram com você. Como se fosse um incêndio ou uma inundação, sua comunidade é a que sofre com você.” A coisa mais arriscada, todos concordam, é dar credibilidade nas redes a “todos aqueles que de repente parecem doutores em biologia e sabem tudo”, diz Rendueles.

“Hegel dizia que as grandes catástrofes produzem pureza, elas nos dizem o que é importante e o que é passageiro”, conclui Amelia Valcárcel. “Quanto tempo a nossa força vai durar é uma incógnita, mas no momento as pessoas estão telefonando para a família, os amigos, colocando as coisas em ordem. E isso é curioso e bom.”

Texto: Berna González Harbour/El País. Foto: Eric Baradat/AFP.