O lado obscuro do TikTok, a rede social chinesa dos vídeos curtos

Aplicativo tem 500 milhões de usuários, mas sua origem desperta dúvidas sobre a segurança dos dados e a liberdade do conteúdo.

Quando clicamos, a tela do celular se transforma numa sucessão interminável de vídeos, a maioria com menos de 15 segundos. O aplicativo se chama TikTok, e é provável que você seja um dos 500 milhões de usuários – mais que os do Twitter e do Snapchat, pouco menos que a soma de ambos – espalhados no mundo inteiro. Em 2019, o app se tornou um fenômeno global. É a primeira plataforma chinesa a conseguir a façanha, outro sintoma da vertiginosa velocidade da inovação tecnológica no gigante asiático. Além do sucesso, porém, sua nacionalidade começa a despertar vozes preocupadas com a segurança dos dados e a liberdade de conteúdo.

Só no ano passado, o TikTok foi baixado mais de 750 milhões de vezes, segundo dados da firma de consultoria Sensor Tower. Foram várias dezenas de milhões de downloads a mais do que Facebook, Instagram, YouTube e Snapchat obtiveram no mesmo período. O app está disponível em 150 países e 75 idiomas. Na Índia, seu principal mercado, quase um terço da população já baixou. A mesma porcentagem se aplica aos Estados Unidos. Desses 500 milhões de usuários, cuja média de idade varia entre 16 e 24 anos, 90% visitam a rede social mais de uma vez por dia durante cerca de 52 minutos. O que equivale a um bilhão de vídeos vistos a cada 24 horas.

Tudo isso transformou o TikTok numa máquina de fazer dinheiro: a mesma agência estima que sua receita anual aumentou 521%. Só é possível recorrer a dados de terceiros, pois a empresa “não divulga suas cifras comerciais”. A publicidade é a base de seu modelo de negócios. “Um esquema complicado”, diz Jeffrey Towson, professor do MBA da Universidade de Pequim, “porque, para obter lucros, é preciso ter um volume enorme de tráfego, bilhões de visitas.” O TikTok tem.

O auge da plataforma mostra a pujança tecnológica do país asiático. “Toda a inovação no negócio do consumo vem da China, não do Vale do Silício. Quase 10 anos depois da morte de Steve Jobs, a única coisa que a Apple pode oferecer são seus AirPods: fones de ouvido! Enquanto isso, o grande projeto de futuro do Facebook é uma plataforma de pagamento digital, algo que a Ant Financial [filial da Alibaba, proprietária do AliPay] já faz há anos”, diz Towson. “Aqui, por outro lado, aparecem novos apps todo mês. Se você examinar quais são os 100 mais baixados no Google Play da Índia, por exemplo, pelo menos 40 são chineses. O TikTok é só o primeiro a ganhar a atenção do Ocidente.” Jeongwen Chiang, professor de marketing da Escola de Negócios Internacionais China-Europa (CEIBS), não tem dúvidas: “A China é, de longe, o país mais avançado em questões digitais.”

O logo da rede social Tik Tok em aparelhos celularesDADO RUVIC / REUTERS (REUTERS)

O sucesso do TikTok fez da ByteDance, a empresa criadora, uma das startups mais atrativas do mundo: sua última rodada de financiamento, realizada em agosto de 2018, elevou seu valor a 67 bilhões de euros (308 bilhões de reais). Os últimos rumores falam de uma possível abertura de capital em Hong Kong no primeiro trimestre deste ano. A ByteDance iniciou sua trajetória com um agregador de notícias, a plataforma Jinri Toutiao, que usava inteligência artificial para adaptar seu conteúdo aos usuários. Mas seu diretor-geral, Zhang Yiming, logo reorientou seus interesses. “No setor de conteúdo, o texto e as fotos evoluíram em direção ao vídeo. Cada vez é maior o conteúdo gerado pelos próprios usuários”, declarava na época. Com essa ideia em mente, em 2016 Yiming lançou o Douyin, um aplicativo de vídeos curtos que alcançou 100 milhões de usuários em menos de um ano.

E, menos de um ano mais tarde, a ByteDance comprou, por um bilhão de dólares (4,2 bilhões de reais), o Musical.ly, um app parecido e muito popular entre os adolescentes dos EUA. Na opinião de Chiang, esse movimento foi essencial. “Embora ambas fossem empresas chinesas com um produto similar, o Musical.ly tinha sido muito bem recebido no exterior, ao passo que o Douyin dominava o mercado doméstico”, afirma. Dessa sinergia nasceu o TikTok.

Mas o Douyin não desapareceu. TikTok e Douyin, plataformas similares, convivem – somando um bilhão de usuários – de forma paralela. O primeiro só é acessado no exterior. E o segundo dentro da China, para cumprir com a política de censura imposta pelo Partido Comunista. Esse vínculo é fonte de muitas preocupações, relacionadas com a segurança dos dados dos usuários e com a liberdade de expressão.

Em dezembro passado, o Exército dos EUA proibiu seus soldados de terem conta no app, argumentando que seu uso poderia representar uma ameaça para a segurança nacional. Os senadores Tom Cotton e Chuck Summer chamaram os serviços de inteligência para avaliar a atividade do TikTok, alegando que poderia ser obrigado a “apoiar e colaborar com operações de inteligência controladas pelo Partido”, já que “as empresas chinesas não têm meios legais para rechaçar as demandas do Governo.” A ByteDance respondeu com um comunicado, afirmando que seus servidores ficam nos países onde o app está disponível. Os diretores da empresa, porém, negaram-se a comparecer perante uma comissão do Congresso encarregada de examinar os vínculos da indústria de tecnologia com a China.

As suspeitas têm fundamento, a julgar pelos precedentes: neste mesmo ano, o TikTok pagou uma multa de 5,7 milhões de dólares (24 milhões de reais) por captar, de maneira ilegal, dados pessoais de menores em sua plataforma. Além disso, numa carta aberta publicada em 2018, seu diretor-geral se comprometeu a “aprofundar a cooperação” com o Partido Comunista de modo a promover suas políticas. O app teve que lidar com vetos temporários na Índia, Indonésia e Bangladesh.

Bloqueios polêmicos

Um segundo motivo de desconfiança é a política que o TikTok aplica à gestão do conteúdo. O aplicativo bloqueou vídeos que denunciavam a violação de direitos humanos na China, em particular com relação à situação da etnia uigur na província de Xinjiang, onde mais de um milhão de pessoas são vítimas de encarceramento maciço. É muito conhecido o caso de Feroza Aziz, uma adolescente norte-americana cuja conta foi bloqueada em novembro após compartilhar um vídeo sobre o tema, que se fazia passar por um tutorial de maquiagem e que logo viralizou. A plataforma alegou depois que teria se tratado de um erro humano relacionado com uma publicação anterior.

“A fortaleza desse tipo de rede social é que é muito simples escalar os conteúdos porque são criados pelos próprios usuários. Mas isso gera um problema de supervisão”, afirma Towson. “Porque, se não existe um controle sobre esses conteúdos, a qualidade diminuirá e os usuários acabarão indo embora.” Essa intervenção é particularmente difícil quando o conteúdo é formado por vídeos “porque, diferentemente do texto, os algoritmos não podem operar de maneira autônoma.”

A chave, em sua opinião, está na linha tênue que separa precaução de censura. “O Twitter faz isso, o YouTube também: todos fazem. A questão é se o usuário confia na pessoa que faz. Se você almeja ser uma empresa internacional que supervisiona conteúdos pelo mundo todo, deve sair de seu escritório, tornar-se conhecido e ganhar a confiança das pessoas. O maior problema do TikTok é, em última instância, a transparência.” Na tela de 500 milhões de telefones, enquanto isso, os vídeos curtos continuam sendo reproduzidos.

Texto: Jaime Santirso, Pequim/El País.